DIA-A-DIA NA CIDADE (7)

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

Fui seduzido pela memória e estou apaixonado. Aconteceu, como nos romances de amor. Questão de consciência e de lucidez.  E de tal modo que, usando o princípio que aconselha puxar pela mente, fui levado a interiorizar. Falar comigo mesmo. É melhor recordar na base de coisas palpáveis, documentos, vídeos ou fotos, material que dê garantias à verdade e não seja exposto a omissões. Decidi guardar para lembrar, com o espírito com que o faz, por exemplo, o meu amigo Naldinho. Dele, subscrevo a belíssima ideia de que faço agora referência. Aplaudo a razão entendível e à qual me junto incondicionalmente, quando publica fotos de há vinte, trinta ou mais anos, para lembrar momentos, datas, família e amigos. 

Estou aqui hoje, a querer falar por mim, mas faço-o de modo plural. Para dizer que quando atingimos uma idade avançada, ganhamos certos hábitos, alguns acabam por virar manias. Nascem por virtude da confiabilidade. Confiamos demasiado em pessoas, acreditamos no que elas nos dizem, e mais do que isso, confiamos na nossa infalível memória. Alimentamos certezas, por vezes meio incertas. E pomo-nos a afirmar que nos lembramos de tudo, dizendo erradamente que nunca, ou quase nunca, erramos. Hoje, já admito com outra certeza, que, afinal, estamos todos sujeitos aos erros e omissões. Qualquer que seja a nossa idade. E começo a aceitar que quanto mais velhos estamos, mais facilmente nos enganamos. 

Na semana passada, nesta coluna, garanti, que José Saramago, Prémio Nobel de Literatura de 1998, tinha estado em Luanda em Novembro desse mesmo ano.  Na verdade, e independente da possibilidade de ter estado entre nós nessa altura, José Saramago esteve, de facto, em Luanda, desta vez afirmo-o com toda a certeza, em Setembro de 1999. Já não receio errar, porque sustento a memória em documentos credíveis. Confirmo ainda, já com toda a segurança, que o dramaturgo e encenador angolano José Mena Abrantes,  escreveu e leu o discurso que homenageou o Prémio Nobel de Literatura na recepção organizada pela Associação Chá de Caxinde. Ainda bem que a minha consciência me levou a tempo de emendar um lamentável lapso! Como não me apaixonar pela minha memória?!

Nos últimos meses, muita coisa acontece em Angola e no Mundo. Coisas que vão exigir futura, mas documentada lembrança. Porque, a cada dia que passa, vemos cada vez mais coisas que nos perturbam. Que carecem de registo adequado para que não passem ao esquecimento. Pelo bem e pelo mal que causam. Recordo a primeira. 

De um lado, imagens da guerra a destroçar os nossos espíritos, pela violência que transmitem. Autêntico aniquilamento de populações dizimadas sem dó nem piedade; do outro lado, a observação dos passos tranquilos, na hora de deixar o seu alto cargo e sair pelo seu próprio pé do Palácio, do ex-Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa. Provavelmente para apanhar um carro para o levar para casa. Neste tempo violento que se vive, foi das imagens mais interessantes que vi nos últimos dias. Muita dignidade e cidadania, mostradas em atitude desconhecida entre nós. Uma imagem que também nos diz que, afinal, nem tudo anda mal!

Tempo para amar e tempo para morrer, é o famoso título do alemão Erich Maria Remarch ou Remarque ou ainda Remark, que também resultou num belíssimo filme. Narra cenas de um outro tempo de guerra, com dramas idênticos aos que preenchem os tempos que vivemos hoje, passados com as mesmas dúvidas e as mesmas tragédias.

Numa segunda ocasião, sem conseguir evitar de pensar neste tempo miserável. 

Escolas bombardeadas e crianças mortas na Palestina e no Irão. E noutras paragens. Tragédia! Mas sem guerra, também se faz mal às escolas em Angola; não precisam de ser bombardeadas ou atingidas por mísseis! Faz-se mal com o que se tenta fazer e com o que não se consegue fazer, em prol da escola e da educação. 

Em aparente gesto de desespero, substitui-se uma incrível ministra da Educação, de currículo desastroso, por outra, que terá as suas ideias e a quem é transmitida uma ordem superior que assusta. Tirar da rua os miúdos, pôr as crianças na escola! Rapidamente e em força, ou quase isso. Como se fosse ordem de fácil cumprimento, mesmo que resguardado por uma vontade política inesperada, mas sempre reclamada, e vista, pelos vistos, como a coisa mais natural desta vida. 

Tempo para amar e tempo para morrer.

Novamente o livro de Remarch ou Remarque ou ainda Remark, novamente imagens do grande filme. Na minha ideia permanece uma outra vontade. Mudar definitivamente este maldito tempo, para tempo para amar e tempo para viver.

Vagando num mar de pensamentos, não me afasto das comparações que me seduzem e preocupam. Obrigam-me a fazê-las, por vezes, fora de contexto, embora me remetam ao essencial.  Ao inevitável confronto de duas guerras. A de verdade, brutal e desumana como nenhuma, e à outra, que tem a ver com coisas que nos acontecem por culpa nossa, neste tempo que é, também de verdadeira guerra, só que vista numa perspectiva de paz podre.

Não fico confortável ao ver e ouvir o nosso Presidente da República a fazer uma espécie de apelo, vamos ajudar a ministra da Educação a tirar os miúdos no analfabetismo e pô-los na escola. Simplesmente porque, para tal, temos de lembrar que primeiro, ela necessita de muito dinheiro, de planos bem delineados e confiáveis, de gente inteligente à sua volta e mais vontade política. Sem isso não vai lá. É muita a miudagem sem escola, Senhor Presidente! Precisa disso e de se aliar à gente que ensina a ler e a escrever e à outra que produz os livros onde se ensina a ler e a escrever. Uma classe atirada à sua sorte e que não consegue trabalhar. Necessita de respeito e reabilitação. Não esqueça, Senhor Presidente, que existe gente capacitada no País, capaz de ajudar, mas que necessita de ser ouvida. Resumindo, é precisa aproximação, contacto com essa gente.

Volto para a semana. Antes despeço-me dos meus leitores, familiares, amigos e companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Luanda, 12 de Abril de 2026

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