DIA-A-DIA NA CIDADE (5)

JAcQUEs TOU AQUI! 

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS 

1-Tenho assinalado nesta página, semana após semana, a partida de pessoas que estimo. Desta vez registo o falecimento de Rui Jorge Mangueira. Mais uma perda irreparável. Morreu umhomem, um cavalheiro, um diplomata de excelência e de fina presença, uma pessoa admirável, um cidadão exemplar. É mais um enorme prejuízo para o País. Vai fazer muita falta! Com muita tristeza, endereço sentidas condolências à família enlutada. 

2- O fim-de-semana passado foi prolongado. Por causa do Dia da Libertação da África Austral. Justificava-se festa rija, se o tempo fosse de festa! Pelo contrário, é de tristeza, por tudo o quevai acontecendo. Por via disso, não encontrei razão para recusar o convite e sair do bulício da cidade grande. Já se justificava uma trégua neste dia-a-dia frenético. Preciso mesmo de acabar com a inquietação que atinge o meu processo energético. 

Parei de ouvir balelas, desprezei as notícias dos blogues e da Internacional News. Dei um chega pra lá aos mísseis balísticos, às bombas mortíferas, às bases destruídas e às mortes escusadas. Não obstante, ainda escutei que o Presidente Trump continua cantando e rindo. Ufano, fiel a si próprio no seu pretensiosismo, vai-se contradizendo. Agora pretende a paz e, através das suas bocas, foi insultado pelo seu colega alemão. O homem é politicamente incorrecto, reclamou o outro, e provavelmente com a sua razão! Na véspera, especulou-se sobre a morte de Benjamin Netanyahu, o castigador implacável, o maior inimigo dos árabes. Soaram apitos festivos. Mas o homem é duro, não morreu, deixou muita gente triste.  

Pus-me em movimento.  Já tinha mandado lixar a guerra quando resolvi caminhar e ponderar. Estavam aí duas coisas que me faziam falta! Depois de um desentendimento político-ideológico com um velho amigo, com quem esgrimo umas makas da sanzala, decidi percorrer uns quilómetros a pé. Fui da Vila Clotilde ao Largo da Maianga. Nada mau! Espreitando, aqui e ali, a cidade antiga, buscando farmácias e um medicamento que desconseguia de encontrar. O milongo não era para curar azia, tinha a ver com outras mazelas. Aconselharam-me coca-cola, e resultou. A azia das maka que estamos com ela, custa a curar e deixa certas marcas. Magoa, mas é curável. 

Amanheci e lá fui então, saindo de portas. Para chegar ao meu Calulo amado, capital do lendário Libolo. Pelo caminho, os meus olhos foram matando as saudades “incabáveis”. Passei a Munenga apreciando o mais que velho palmeiral. Topei o desvio para o Quindungo. Ah! Minha infância, meus parentes, o dendém, a fábrica de sabão! A saudade também magoa.  Um alto capinzal está a cercar Ndala Uzo, local onde nasci, e a “Pedra Escrita”, símbolo da Revolta do Libolo que não deve ficar escondido, não se mostra por estar envergonhado. Como num filme de acção, imagens da “tonga” brava passavam pelos meus olhos cansados e ocultava terra entregue a gente que a comprou ao Estado, ao preço da jinguba torrada! Fizeram-me lembrar palavras ditas ou escritas há uns anos. Repito-as agora. Muita dessa gente não dá serventia à terra que comprou. Porque não tem amor, só tem dinheiro! Mas, deixo-me dessas lembranças. O que eu quero agora é falar do Calulo de hoje! Não sei, palavra de honra que não sei, se já lhe mudaram o estatuto. É que se mudou tanta coisa com a história dos novos municípios e comunas! Receio que esta crónica se estique e eu não quero cansar os que fazem o favor de me ler. Devo só dizer que me admira o facto de a Munenga já ser município! Tem menos povo que a Cabuta, senhores! Mas quem sou eu para me envolver nessas makas? Tenho de aceitar que quem pode manda, e nós, “os que nos preparamos para morrer” como na época de Nero, Marco António e Petrónio, da imperial corte romana, limitamo-nos a obedecer. Obedecendo, mas sempre avisando, não se esqueçam da tradicional rebeldia dos de Calulo! Lembrem-se de Kasalasala! Apesar de tudo, a vila continua airosa e linda. Está como sempre esteve, marcada pelo Destino e pelas cenas que tão bem a identificam. A fama tem dessas coisas. Ganha-se e ela fica para sempre!  

Para não desmerecer a sua reputação, no domingo registou uma boa, das que se chamam de “cena matula”. Ei-la: Após o jogo do Girabola, o treinador de futebol do Recreativo do Libolo, foi insultado, ameaçado e impedido, durante horas, de deixar o Estádio “Mário Pacheco”! O coitado do treinador, só foi desimpedido, já a noite caíra e ia alta. Consequências da derrota sofrida diante do último classificado (aos cinco minutos já perdiam pelos 0-2 finais), levaram a uma situação inusitada. Iminência de surra e carro próximo de sofrer danos. Foi necessáriaintervenção policial! Conheço bem os ímpetos dos aficionados de Calulo. 

Estávamos a meio dos anos sessenta. Eu, já emigrado no Dondo, fui jogar a Calulo e no ainda inacabado “Estádio Dr. Neto de Miranda”, nas traseiras da Fortaleza, defrontei os da minha terra. Boa exibição, consegui marcar dois golos! Mas não sabia o que me esperava. Taquinho, Dudu e outros, arregalaram os olhos, vozes enfurecidas, ameaçaram. Era pecado um naturalmarcar dois golos à equipa da terra! A tradição já tinha imensa força naquela época. Seguiam os passos do passado, protagonizados por Chavito e Miguel Chaves, Capiço e Kitinango!Mulatos ordinários, tratados dessa maneira pelo senhor Manuel Paz do Dondo! Quando perdiam, os ditos mulatos não hesitavam. Invadiam o campo com carrinha ou camioneta, tentavamatropelar jogadores adversários e, principalmente, o árbitro, sempre o eterno culpado dos desaires. Tempos do quilé! Mais tarde surgiram novos personagens e formas diferentes de amar Calulo e o futebol. Toneca Campos, Candolas, Bucha Oliveira, Isidro Costa, Ruy Aníbal, Valério Amorim, Renato Leão, Didi, César Tomé, entre outros, foram idolatrados e marcaram épocas de glória. Passaram o testemunho a Queirós, Zeca Santos, Sabará, Isidro, Quintas, Mário Pacheco, Tarzan, Higino, Matreira e a muitos outros, transformando-se, eles também, emídolos de Chico Lúcio, Dudu Ferraz e companhia. Seguiam a linha de adeptos ferrenhos de antigamente, do tipo dos José da Costa, dos Tibúrcio, dos Santos Sapateiro, dos Sabino e MendesBravo. Ou ainda, dos Caldeira, dos Cahumba, dos Chaves e dos Almeida, sem esquecer os muitos Calado que jamais desmereceram o apelido guerreiro de maior família libolense. Eram todos iguais no temperamento. Adeptos confusionistas, na linha dos “tifosi” italianos.  

Resumindo, e futebol à parte, em Calulo não se brinca com coisas que tocam o coração libolense, daquelas que identificam o burgo e as suas gentes! O povo não tolera traições! 

Entretanto, no Libolo de hoje, está a ser dado realce e atenção a um slogan interessante. “Enquanto a mandioca pegar de estaca não se vai morrer de fome em Angola”! Implanta-se no Libolo a vontade de se fazer mandioca, para se atenuar a fome no País. A aceitação é visível, a ideia é bem aceite. Já se estende ao Waco-Kungo. Convenhamos que o Kwanza-Sul, em termos de alimentação, é imparável, nenhuma outra região de Angola lhe pede meças. Tive oportunidade de ver, no meio de enormes propriedades e em toda a sua extensão, uma plantação de 500 hectares de mandioca. Procura implantação, crescimento e rentabilidade. Tem parceria técnica com a República do Vietname, hoje por hoje e a par da Tailândia, dos maiores produtores e exportadores de mandioca do mundo. 

Apesar da modernidade, no Libolo e no Waco, há atrasos de vida que chocam. Ainda se seca a fuba sobre o asfalto das estradas, porque o enorme capinzal das bermas das vias, não permite acesso às tradicionais pedras, “ex-libris” da região, locais onde o produto é, por hábito e tradição, manipulado, secado e tratado. 

O carro tinha um bom aparelho de som. A música fluía, transmitindo calma e serenidade ao viajante. Tinha propósito, acalmava, e deliciei-me a escutar. Veio uma melodia não ouvida há muito. Chegou pela voz de Clara Nunes, ela no seu melhor! Fascinante como sempre. Envolvi-me no tema e pus-me a pensar. Não resisti à tentação de passar aqui e agora, a letra de “Lama”, uma composição de um tal Mauro Duarte, música que fui cantarolando no resto da viagem. Eis, caros leitores, a letra deste samba-canção: 

Pelo curto tempo que você sumiu 

Nota-se aparentemente que você subiu 

Mas o que eu soube a seu respeito 

Me entristeceu, ouvi dizer 

Que pra subir, você desceu,  

Você desceu! 

Todo o mundo quer subir, 

A concepção da vida admite 

Ainda mais quando a subida 

Tem o céu como limite 

Por isso não adianta estar no mais alto degrau da fama 

Com a moral toda enterrada na lama!  

Escutei, embevecido, para além da cadência e do timbre de voz da Clara, também a denúncia e o recado contido no verso. Fui obrigado a meditar. Ah! Como a música nos surpreende! Como nos ajuda a pensar na vida! Precisavam de a ouvir, os que, para chegar lá em cima, não se importam de pisar tudo e todos. 

E pronto. Vou terminar aqui e desta maneira, a minha crónica deste domingo. Despeço-me dos estimados leitores, dos parentes, dos companheiros de luta e dos amigos. Vai um abraço fraterno para todos, com a promessa de voltar, no próximo domingo, à hora do matabicho. 

Luanda, 29 de Março de 2026  

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