JAcQUEs TOU AQUI!

Como é incrível a força do poder maldito! Invisível, mas descarado. Por muito que não queira quem manda, mostra desavergonhada as vergonhas da cidade. Não há água e luz para todos por muito que se esforce o Ministério da tutela.
As notícias chegaram subitamente e espalharam-se. O mais-velho Adriano dos Santos e o doutor Manuel Vidigal partiram. Ambos no mesmo dia! Tristeza não tem fim. Dois camaradas, dos bons, rumaram à eternidade! Um, como o outro, pessoas admiráveis. Patriotas conscientes, íntegros cidadãos. Multiplicaram-se os pêsames e as condolências à família estenderam-se aos muitos amigos que tinham. Estava retratada a vida no seu mais amargo desempenho!
Entretanto, ela, a vida, recomendava deixar a tristeza para lá. Sugeria, inclusivamente, a aceitar a morte como coisa certa e obrigava a olhar com seriedade o perigoso presente. Com todos os seus inconvenientes. À margem da intriga política e da violência que grassa; apesar dos mísseis e drones que conduzem bombardeamentos; os da frente EUA/Israel visando o Irão e seus aliados, e os do lado contrário ripostando. Penso nessa maka e decido dar sequência à crónica do domingo passado e, entre o mais, dizer à malta que continuo vivo.
Inicio com um lembrete retrospectivo. Cheguei a Luanda numa manhã de domingo, e a cidade mostrava-se calma. Tranquila demais, se avaliada por determinadas expectativas.
O trânsito, no sentido Aeroporto Novo/Baixa, do qual ouvi dizer horrores, afinal estava fluído. Apesar da distância, Viana ficou para trás num ápice. Não tardou que sentisse a fragrância que perfuma o Largo Primeiro de Maio e suas redondezas. A aura do longínquo dia da Dipanda, mantem-se viva. Sinto-a, sempre que passo ali. Cinquenta anos depois, permanecem a fé e a esperança. Falta apenas a caridade. Anda desaparecida da terra. Tudo indica que abandonou o pessoal!
Havia gente a movimentar-se. Panos garridos, padrões de várias peças, envolviam dezenas de senhoras em roupagem bessangana. Marchavam nas imediações da Igreja da Sagrada Família. Fiquei atento. Soprava vento fresco, sinónimo de assunto sério! Só podia ser, tanto colorido e entusiasmo. Que bonito! Era o dia da cidade de São Paulo de Assunção que se assinalava, o 25 de janeiro. Justificava-se a Festa.
Vasculhei documentos na bagagem. Encontrei prova de vida de ausente da terra, uma coisa comum. Cabia-me atender o pedido difícil de negar. Desviei a rota para os Combatentes. Tudo joia, muito tranquilo. A limpeza das ruas permitia-me descobrir o espectro que paira há muito sobre a cidade. Nada que surpreendesse. A ameaça é real e só não a vê quem não quer! Estranhamente, há quem não aceite ver o mal que nos amaldiçoa. O seu poder apresenta-se com notável frieza. De mansinho, em caminhada cega e descontrolada, ataca o património público. Não distingue alvos. Destrói com idêntica brutalidade, paredes e pinturas, madeiras, mosaicos, azulejos, tudo. Magoa os muros que cedem, os ferros vergam-se e os terraços suplicam perdão às construções anárquicas que deformam estruturas. As entradas e os portões isentaram a numeração de polícia. Pouco importa, o correio deixou de ter serventia. As redes sociais resolvem tudo, enquanto a Inteligência Artificial anuncia que ninguém é de ninguém. Até imita Cauby Peixoto!
Não sei porquê, penso no poder local. Valerá mesmo a pena questionar as autarquias? Para já, deixo-as para próximas reflexões. Entretanto, na longa Comandante Valódia que já foi dos Combatentes antes da Revolução, e na correnteza que a conduz à baixa velha e tradicional, o mal persegue-me e mostra-se. Cada vez mais monstruoso! As modernas construções emprestam beleza e modernidade à Marginal e estendem privilégios e vaidades à Baía. Mas não conseguem disfarçar mazelas. As pinturas dos velhos edifícios desbotam-se enquanto se descobrem entupimentos de canos e esgotos irreversíveis. Como é incrível a força do poder maldito! Invisível, mas descarado. Por muito que não queira quem manda, mostra desavergonhada as vergonhas da cidade. Não há água e luz para todos por muito que se esforce o Ministério da tutela. Esconde-se, como todos os outros. Desconseguem evitar, todos eles, o declarado corte de relações com o conhecimento, o controlo e a fiscalização. Nesse andamento desleixado, Luanda vai perdendo capital. Quase tudo do que já teve e que é indispensável a uma grande cidade. Ao invés, mostra orgulhosa, para quem aprecie tristes espectáculos, um esquisito aglomerado de caixas, uns elementos de aparelhos de ar condicionado que competem com parabólicas enferrujadas das televisões do tempo atrasado. Desenham um quadro assustador da cidade misteriosa. Fantástico! As águas sujas acumuladas em longas temporadas de nenhuma limpeza, vão borrando a granel. Tranquilamente, sujando a cidade.
As ruas, os becos e travessas, aiuê, quanto descuido! Nem bancos, nem parques, nem jardins. Faltam as árvores, a relva, as plantas e as flores. Há a sensação de terem emigrado para paragens distantes. Não há coisas boas na cidade? Claro que há! Até há jardineiros a tentarem coisas com algum verde, há polícia para multar, empresas de limpeza, comércio, tanto o candongueiro como o legal, ambos estabelecidos em lojas e lojecas. Não faltam também e naturalmente, os hipers e supermercados. Há negócios de todo o tipo. Até os casinos estão aí para as curvas, abundam as casas de lotarias e apostas desportivas que prosperam e enchem algumas algibeiras. Eu próprio não resisti à tentação de jogar e fiz umas apostas malucas que, obviamente, não deram nada. Bem feito! Nunca tive sorte ao jogo.
Já agora, e para quem duvide do progresso do país, é só perguntar aos que gabam e enaltecem o bom e o bonito. Só desconseguem mostrar o que agrada de verdade, sem quaisquer senãos. Por isso, os murmúrios do povo bocante, não param nas bocas azuis. Não gostei da solução encontrada para a Praça do Kinaxixi. É possível que se esteja em fase de experiências. Prevalece o benefício da dúvida! O que se pretende fazer com o mastodonte da Rampa do Liceu? Sempre imaginei ver aquele local transformado numa Fonte Luminosa, com espaços relvados e bancos para os jovens relaxarem, passearem e namorarem. Para os mais velhos matarem saudades.
Haverá, seguramente, muita coisa em carteira, mas acho que está a faltar qualquer coisa. O espectro ou a sua sombra, vai mostrando isso. Nas suas garras algum sangue e assomos de malvadez. Volto a enumerar as ruas destroçadas, calçadas destruídas e sem passeios. Prédios assustadoramente inclinados para a frente, a ganhar vida para uma nova etapa. A da queda inevitável, praticamente anunciada, que até parece assustar os automobilistas. Estes, misturados com azulinhos e motoqueiros, andam nervosos, irritadiços. Estremeço ao notar que se desenham entre nós cenários de antigos filmes de terror. Lembram Frankenstein e os ciclos de Alfred Hitchcock.
Contudo, nem tudo é mau. Já vi alguns dos largos das duas Vilas. Da Alice e da Clotilde, e até de certas ruas da Samba, a tentarem voltar ao estilo original. Pedaços do Bairro Operário recuperados e tapumes espalhados pela cidade mostram que há vontade de trabalhar. Parece que o novo governador é dinâmico. Luís Nunes tem qualidades. A maior delas é ser milionário. Diz-se que não precisa do dinheiro do erário público para nada. Só pretende prestígio através da obra que realiza. Bem-haja o homem! Não fica mal pensar que quantos mais milionários se tornarem governantes, mais depressa alcançaremos ordem e desenvolvimento, mais rapidamente teremos obra realizada. Candidatos para altos cargos não devem faltar! A política a surpreender-nos permanentemente. O pior de tudo e no nosso caso particular, é que nem todos os milionários são capazes!
Fico por aqui. Despeço-me dos meus estimados leitores, dos familiares e amigos. Dos companheiros de luta. Para a semana estarei de volta, no domingo, como tem sido hábito. Prometo a minha presença na hora do matabicho.
Luanda, 8 de Março de 2026











