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Nos idos anos oitenta/noventa do século passado, a grelha da programação da Rádio Nacional de Angola exibia como “coqueluche”, uma rubrica que agradava bastante os ouvintes. “Dia-a-dia na cidade” radiografava, em tom perfeito, o quotidiano da cidade-capital que, por essa altura, já mostrava o seu destino. Inseguro, vibrante, repleto de esperanças, sem perspectivas.
Vieram-me à mente episódios desse tempo de crenças. No turbilhão de recordações, a velha rubrica informativa também se apresentou, quando desembarquei há cerca de um mês em Luanda. Senti boas sensações ao ver-me envolvido por novas emoções. Não resultavam do impacto da estreia do novo Aeroporto. Apesar de me ter impressionado pela estrutura limpa e arejada e, sobretudo, pelo desembaraço que proporciona aos passageiros. Serviço de fronteiras eficiente, rápida entrega das bagagens, devido provavelmente à baixa frequência de voos. Tirando a surpresa do escasso movimento, tudo a funcionar muito bem. Sobre a quantidade de aeronaves que precisarão de pousar diariamente no Aeroporto Presidente Agostinho Neto, para ser verdadeiro motor de desenvolvimento estratégico, é assunto do futuro.
Entre dúvidas e receios, veio o melhor dos palpites. A lembrança! Nada mais positivo para quem anda longe do burburinho da terra há mais de dois anos! Ausência prolongada só a de 1992, quando viraram moda os acordos de cooperação. Foi nesse âmbito que permaneci em Espanha, uma boa temporada. Na qualidade de membro do grupo de quarenta e tal quadros angolanos que, durante quatro meses, mais ou menos, estagiou em várias empresas daquele país. Para buscar conhecimento e experiência. Em contexto moderno de cenários mais evoluídos. Evidenciando as nossas carências, todos vivemos intensamente a rica experiência. Eu e mais dois colegas tivemos o privilégio de estagiar em Majadahonda, arredores de Madrid. Concentramo-nos no dia-a-dia da seguradora MAPFRE. Mas pouco sabíamos da entidade! Apenas que a sua sigla nascera do acrónimo de Mutualidad de la Agrupación de Proprietários de Fincas Rústicas de España.
A MAPFRE já era, nessa altura, um colosso no mundo dos seguros, embora distante da referência internacional em que se tornaria mais tarde. Hoje, é um poderoso grupo formado por mais de 250 empresas espalhadas pelo mundo. A sua dimensão mostrava-se em pormenores como os princípios rígidos observados no recrutamento do pessoal que a servia. Na selecção cuidada dos técnicos, tanto quanto na hierarquização da estrutura dirigente, era visível o rigor de processos utilizados. Medidas inéditas, para nós, mostravam como se impedia a prática do nepotismo na sua organização. Era o caminho do sucesso, garantiam-nos. Regras bem definidas, impediam a nomeação ou contratação de familiares ou aparentados dos chefes. Pais e filhos, maridos e esposas, netos, sobrinhos, primos, essencialmente, estavam impedidos de se relacionarem em termos de trabalho. Recordo esse aspecto particular, não me furtando, como não me furto ainda, a compará-lo ao que, infelizmente, se conhece em Angola. Aqui, onde esse tipo de promiscuidade chega a ser deprimente e acaba por ser extravasada pelo favoritismo intragrupal que bem se conhece, e que não implica relações familiares com os beneficiados pelo exercício de altos cargos. É demasiado conhecida no nosso meio essa prática notável de favorecimentos e conquista de vantagens. Ela é própria de regimes autocráticos.
Já que estou aqui, envolvido na narrativa áspera que molda o ambiente de aproveitamentos que nos cerca, farei com que o “dia-a-dia na cidade” inscrito na epígrafe desta crónica e que dará sequência às que certamente se seguirão, não se limite à abordagem do que vi e analisei à minha chegada à terra amada. O quotidiano não vive, não pode viver apenas do presente. Alimenta-se também do passado. Que faço questão de promover, com o reaparecimento de um hábito que não é novo nas crónicas que há muito assino no espaço que me é cedido pelo Kesongo. Não prometo a periodicidade semanal a que habituei os meus leitores, mas farei o possível por estar presente, o melhor e mais regular que possa. Começando por não me afastar dos casos que observo e que fazem o meu novo “dia-a-dia na cidade”, enquanto permanecer em Luanda.
Nestas circunstâncias, volto ao princípio e lembro que essa primeira permanência longa em terra estranha, não possibilitou a participação do nosso grupo nas primeiras eleições gerais em Angola, em Setembro de 1992.
Para comemorarmos o fim do estágio e o resultado das eleições que dariam lugar à instalação do governo do MPLA, à rebelião da UNITA e ao estado de guerra que nos marcou tragicamente. Entretanto, eu, na condição de mais velho do grupo, fui indicado para fazer um discurso apropriado ao momento que se vivia. Escrevi-o cuidadosamente. O local onde decorreu a cerimónia era uma pequena reprodução do Congresso dos Deputados espanhóis. Lembro-me bem e também da solenidade emprestada ao acto. Porém, para surpresa de quase todos, a folha de papel onde estava impresso o meu discurso tinha desaparecido. Seria o início de um conjunto de coisas estranhas que me perseguiram ao longo dos anos, ou simplesmente, um mero acaso? Alguém fizera o favor de o desviar, não sei com que intenção. Brincadeira tem hora! Murmurei para mim naquela hora difícil. Mas como sempre fui bom a improvisar, falei ao sabor do conhecimento que sempre tive da difícil situação de Angola e dos benefícios da experiência vivida no país ibérico. Sabem que mais? Saí-me bastante bem da empreitada, provaram-no os aplausos que ecoaram no nobre salão.
Sinto-me vivo e que estou bem a recordar estas passagens, mas por hoje, chega. Prometo voltar para a semana. Possivelmente com outras lembranças da minha estadia em Espanha, e também da observação que faço agora do quotidiano luandense. Enquanto isso, desejo o melhor para os meus leitores, camaradas e amigos. Esperarei por todos no próximo domingo, à hora do matabicho.
Luanda, 1 de Março de 2026










