DESEMPREGO JOVEM EM ANGOLA E A LIÇÃO DA CHINA

POR JOAQUIM JAIME

Os jovens angolanos não querem promessas. Querem tractores, fábricas, oficinas e escolas técnicas onde possam aprender um ofício com futuro – exactamente como os jovens chineses tiveram nas últimas quatro décadas.

O paradoxo angolano

Os números oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE) são claros e deveriam soar como um alarme de incêndio dentro de todos os gabinetes ministeriais: em 2024, a taxa de desemprego em Angola fixou-se nos 31,5%, o que corresponde a 5,6 milhões de pessoas sem trabalho. Mais grave ainda: segundo o Inquérito ao Emprego em Angola (IEA) 2024, “82,8% dos desempregados têm entre 15 e 34 anos, com a taxa de desemprego a atingir 57,7% entre os jovens dos 15 aos 24 anos”.

Estes números não devem ser vistos como meros dados estatísticos. São o retrato de um país que, durante décadas, viveu das rendas do petróleo e ignorou a única fórmula comprovada para gerar emprego em massa e desenvolvimentosustentado: industrialização, agricultura mecanizada e formação técnico-profissional alinhada às necessidades reais do mercado. É precisamente esta fórmula que a China aplicou com sucesso nas últimas quatro décadas, e cujas lições Angola pode — e deve — aprender.

O retrato do mercado de trabalho em 2024

Os dados do INE não deixam margem para optimismo fácil, apesar dos esforços. Com uma população estimada em 36,6milhões de habitantes em 2024, “mais de 55% dos angolanos têm 15 ou mais anos, ou seja, fazem parte da população em idade activa”. A taxa de actividade no país é de 90%, o que significa que “nove em cada dez pessoas em idade activa estão no mercado de trabalho, seja empregadas ou à procura de emprego”.

Apesar desta elevada participação, a qualidade do emprego é profundamente preocupante. O relatório do INE revela que “o mercado de trabalho angolano é altamente informal: quase 80% dos trabalhadores não têm contratos formais e entre os jovens de 15 a 24 anos a taxa de informalidade chega a 93%”. Além disso, “62,4% dos trabalhadores têm apenas contratos verbais e só 37,6% contratos escritos”.

Quanto à situação no emprego, “a maioria dos angolanos trabalha por conta própria (44,6%), enquanto apenas 18,9% estão no sector privado e 8,5% no sector público”. Por sector de actividade, “a agricultura, caça e pesca continuam a absorver a maior fatia da população empregada (46,6%), seguida do sector terciário (45,3%) e apenas 8,2% no sector secundário”.

No plano regional, as disparidades são igualmente gritantes. “O Huambo lidera na taxa de emprego (78,2%) em contraste com Cabinda (48,1%) e Huíla destaca-se pela maior taxa de desemprego (47,3%), enquanto o Cuanza Sul apresenta a menor (10,9%)”. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) confirma a tendência, registando taxas de desemprego jovem masculino e feminino nos 30,2% e 25,7%, respectivamente, em 2024.

Como observa o Banco Mundial no seu policy brief Good Jobs for Angolan Youth (2024), os desafios do emprego jovem em Angola são estruturais e exigem “uma combinação de reformas macroeconómicas, investimento em capital humano e políticas activas de mercado de trabalho”.

A armadilha do “crescimento sem desenvolvimento e desenvolvimento sem indústria”

A economia política ensina que nenhum país se desenvolveu verdadeiramente sem industrialização. A Inglaterra do século XVIII, os Estados Unidos do século XIX, o Japão do pós-guerra, a Coreia-do-Sul e a China das últimas décadas seguiram todos o mesmo roteiro: transformar matérias-primas localmente, criar cadeias de valor, gerar emprego qualificado e, a partir daí, construir uma classe média e um mercado interno robusto.

Angola, durante muito tempo, fez exatamente o oposto. Exportou petróleo e diamantes em bruto, importou quase tudo o que consome, e deixou a juventude entregue ao desemprego ou ao trabalho informal de subsistência. O sector industrial representa apenas 8,2% do emprego total – um valor manifestamente insuficiente para um país com o potencial angolano. E a agricultura, embora empregue 46,6% da população activa, é maioritariamente de subsistência, com baixíssima productividade e quase nenhum valor acrescentado.

Isto é o que os economistas chamam de armadilha da renda (resource curse): a abundância de recursos naturais desincentiva a industrialização, porque é mais fácil vender petróleo do que construir fábricas. Como argumenta o economista Ha-Joon Chang, todos os países que hoje são desenvolvidos usaram políticas industriais activas e intervenção estatal pesada para criar emprego produtivo. A China é o exemplo mais recente e mais impressionante desta verdade.

A China como modelo

Nenhum país na história moderna se desenvolveu tão rápida e profundamente como a China. Nos anos 1980, a China era um país agrário e pobre, com um PIB per capita inferior ao de muitos países africanos. Quatro décadas depois, é a segunda maior economia do mundo, tendo retirado mais de 800 milhões de pessoas da pobreza e erradicado formalmente a extrema pobreza. Como o conseguiu?

A resposta está numa combinação virtuosa de três pilares: industrialização orientada para a exportação, agricultura mecanizada e formação técnico-profissional de massas.

A revolução da formação profissional na China

A China compreendeu, desde cedo, que não há industrialização sem trabalhadores qualificados. Por isso, construiu um dos maiores sistemas de educação vocacional do mundo. De acordo com um estudo publicado no Asian Journal of Education and Social Studies (2026), “as principais direcções da reforma do ensino profissional na China são: aumentar a capacidade de resposta curricular através da contribuição regular da indústria, promover parcerias entre instituições de ensino e empresas, e integrar tecnologias avançadas e formação em competências transversais nos programas profissionais”.

O resultado é impressionante: desde Maio de 2019, a China aprovou a criação de 87 instituições de ensino profissional de nível universitário, um crescimento sem precedentes a nível mundial em termos de velocidade e escala. Como documenta a investigação académica, “o ensino profissional universitário na China evoluiu através de três fases: a fase de construção e exploração do quadro, a fase crítica de expansão e melhoria da qualidade, e a fase de aprofundamento de conteúdos e desenvolvimento”.

Este sistema forma anualmente milhões de técnicos qualificados nas áreas que o mercado realmente precisa: soldadura, electricidade, mecatrónica, tecnologias de informação, manutenção industrial. O fosso entre a oferta formativa e a procura do mercado é reduzido ao mínimo através de mecanismos institucionais de consulta regular às empresas.

Angola, por contraste, forma excessivamente quadros superiores teóricos e ignora a formação técnica de massas. O resultado é um desajuste estrutural de competências que mantém milhões de jovens no desemprego enquanto as empresas se queixam da falta de mão-de-obra qualificada.

A revolução agrícola

Talvez o exemplo mais inspirador para Angola venha da transformação agrícola chinesa. Durante décadas, a agricultura chinesa foi de subsistência, com baixa produtividade e êxodo rural maciço. Nas últimas duas décadas, a China executou uma estratégia agressiva de mecanização agrícola que está a transformar radicalmente o sector.

O programa de Subsídios à Compra de Máquinas Agrícolas (AMPS), lançado em 2004, é um caso de estudo em política pública. Um estudo publicado na ScienceDirect (2024) conclui que “o programa AMPS promoveu significativamente a mecanização nas aldeias abrangidas, aumentando em 15 dias por ano o trabalho migrante das famílias rurais”,com um período de retorno do investimento entre 2,4 e 7,1 anos . Mais importante ainda, o estudo revela que “o impacto é mais pronunciado para as famílias altamente dependentes da agricultura e para os trabalhadores do sexo masculino, jovens e mais educados”.

A mecanização não é apenas sobre máquinas – é sobre pessoas. Como reporta o China Education Daily citado pela Associação Chinesa para Ciência e Tecnologia, “drones agrícolas, sistemas de navegação BeiDou, semeadoras de plantio directo, agricultura inteligente através da Internet das Coisas… A força motriz por trás da operação destas ferramentas é uma nova geração de estudantes universitários e recém-licenciados”.

O exemplo de Wang Anzhe, um estudante de doutoramento da equipa de máquinas agrícolas não tripuladas da Universidade de Jiangsu, é paradigmático: a sua equipa desenvolveu sistemas de condução autónoma para máquinas agrícolas que mantêm “precisão operacional dentro de ±5 centímetros”, tornando os sistemas não tripulados “tão eficientes como profissionais experientes”. Wang Lianghui, estudante de mestrado da mesma universidade, destacou outro avanço. Durante um estudo de campo em Yixing, Jiangsu, ele introduziu uma máquina de transplante totalmente automatizada capaz de substituir de 10 a 15 trabalhadores por dia. Essa máquina foi demonstrada em várias províncias, incluindo Pequim, Xangai e Guizhou, cobrindo aproximadamente 2.428 hectares. Outro exemplo é Liang Ripeng, um graduado de 29 anos pela Universidade Agrícola de Shenyang, que se formou em mecanização agrícola. Durante os seus estudos, Liang realizou pesquisas de campo em quase 100 cooperativas agrícolas em todo o país. Munido dessa experiência, ele posteriormente fundou uma empresa de serviços de tecnologia agrícola no condado de Faku, no Shenyang, no nordeste da China, na província de Liaoning. Nas suas próprias palavras, citado pelo Guangming Daily“nos últimos anos, integrámos a gestão das terras agrícolas num sistema IoT, permitindo que um único smartphone supervisione dezenas de milhares de hectares”.

Os resultados são impressionantes: a produção de cereais da China atingiu um recorde de 706,5 milhões de toneladas em 2024, e o “contributo tecnológico para o crescimento agrícola excedeu os 60% em 2023, mais 10 pontos percentuais do que em 2012” . Como sublinha Song Lili, investigadora da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas, “a China está a segurar firmemente a sua ‘tigela de arroz’, e por trás desta conquista está a influência crescente da tecnologia agrícola”.

Angola tem 58 milhões de hectares de terra arável – um dos maiores potenciais agrícolas do mundo. Importa anualmente mais de 2 mil milhões de dólares em alimentos. A receita chinesa mostra que o caminho não é a agricultura de subsistência, mas sim a mecanização em larga escala, a formação de jovens como operadores de máquinas agrícolas, e a criação de agro-indústria para processamento local.

Aoportunidades concretas da cooperação China-Angola

A boa notícia é que Angola não precisa de reinventar a roda sozinha. A China tem colaborado activamente com Angola na transferência de tecnologia, formação profissional e desenvolvimento agrícola.

Em 2024, o Centro Integrado de Formação Tecnológica (CINFOTEC-Huambo), doado pela China, formou 1958 jovens angolanos nas áreas de tecnologias de informação e comunicação, eletricidade, energias renováveis, mecatrónica, mecânica e metrologia. O director do centro, Geraldo Pambasange, revelou que o número de formandos “excedeu as expectativas, ultrapassando em 91% a meta planeada de 1024 jovens”. Em 2025, o centro passará a oferecer um curso de mecatrónica de três anos, com um ano e meio em Angola e outro período igual na China.

Em Abril de 2025, Angola e China assinaram um memorando de entendimento para a construção de uma fábrica de tractores e a criação de uma escola de formação de técnicos agrícolas. O projecto, que começa na província de Malanje, envolve um investimento de 12 milhões de dólares e prevê “formar 300 técnicos anualmente, montar o mesmo número de tractores no mesmo período, criar 500 empregos directos e 5.000 indirectos”.

Também em Maio de 2025, o Grupo SANEP de Angola e a SINOMACH (empresa estatal chinesa do sector de máquinas) assinaram um acordo para a construção de um parque agro-industrial em Malanje, integrando “um centro de exposição e venda de máquinas agrícolas, uma linha de montagem de tratores, um centro de formação técnica e um parque agrícola de demonstração”. O governador de Malanje, Marcos Nhunga, sublinhou que este é um projecto “alinhado com a estratégia do governo provincial para promover a modernização agrícola e o emprego”.

Além disso, o projecto de Formação Profissional para o Estrangeiro levou à criação do Instituto de Engenharia e Tecnologia Angola-China, na cidade do Huambo. Desenvolvido pelo Politécnico de Wenzhou em colaboração com várias instituições chinesas, o instituto segue os padrões curriculares chineses e já formou mais de 2000 estudantes. “O instituto constrói o seu sistema de ensino de acordo com os padrões da educação profissional chinesa, com o objectivo de formar talentos técnicos e profissionais que respondam às necessidades da indústria local”, explicou Song Wuyu, professor chinês destacado na instituição.

O que Angola precisa aprender com a China

A experiência chinesa oferece lições claras para Angola:

Primeiro: a formação profissional deve ser orientada pelo mercado. Como documenta a investigação académica, o sucesso da China reside na “melhoria do alinhamento da educação profissional com as exigências do mercado, no desenvolvimento de programas de formação multi-qualificada, no aumento das capacidades dos formadores e na implementação de reformas políticas de apoio”.

Segundo: a mecanização agrícola é um caminho comprovado para o emprego jovem. O programa AMPS chinês mostra que subsídios inteligentes à compra de máquinas agrícolas libertam mão-de-obra para sectores mais produtivos, ao mesmo tempo que criam empregos qualificados na operação e manutenção dos equipamentos.

Terceiro: o Estado deve ser coordenador, não assistencialista. A China não chegou onde chegou com caridade ou subsídios avulso. Chegou com planeamento estratégico, metas claras, e uma aposta determinada na industrialização e na qualificação técnica da sua força de trabalho.

Quarto: a cooperação internacional pode acelerar a transição. Os projectos CINFOTEC, SINOMACH e o Instituto Angola-China são exemplos concretos de como a transferência de tecnologia e know-how pode produzir resultados rápidos e tangíveis.

O futuro dos jovens não espera

Os 5,6 milhões de desempregados angolanos, com os seus 57,7% de desemprego jovem e 93% de informalidade entre os jovens, são o resultado de décadas de opção errada: petróleo em vez de indústria, subsistência em vez de agricultura mecanizada, licenciaturas teóricas em vez de formação técnica alinhada ao mercado.

A China mostrou que é possível sair da pobreza e do sub-desenvolvimento em poucas décadas. Mostrou que a industrialização, a mecanização agrícola e a formação profissional de massas são os três pilares de qualquer estratégia de desenvolvimento bem-sucedida. Mostrou, também, que está disponível para cooperar com Angola nesta jornada.

O Plano de Desenvolvimento da Juventude 2025-2027 é a oportunidade para virar a página. Mas não passará de mais um documento se não houver coragem política para romper com o modelo da renda e apostar no que realmente funciona.

Os jovens angolanos não querem promessas. Querem tractores, fábricas, oficinas e escolas técnicas onde possam aprender um ofício com futuro – exactamente como os jovens chineses tiveram nas últimas quatro décadas.

Chega de petróleo como desculpa. É hora de industrializar, mecanizar, formar – e aprender com quem já o fez.

O futuro está a ser escrito em mandarim. 

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