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Um enorme gerador de 120 kvas ou mais, objecto de grande porte, foi há dias desviado, roubado é o termo mais apropriado, sob o olhar silencioso de quem anda, às ordens do Ministério da Cultura, a restaurar o Nacional Cine-Teatro.

É verdade meus amigos. O tempo está a passar rapidamente por nós. Apesar da lentidão nas atitudes dos que têm poder de fazer as coisas andarem, a nossa vida parece estacionada. Apesar de se sentir essa rápida passagem do tempo a fazer estragos à nossa volta. Pela imparável contagem dos anos ou pelos cabelos brancos que nos surgem diariamente. Sentimos, sobretudo, o turbilhão de acontecimentos a passar veloz e a exercer influência nos nossos comportamentos. As lembranças são possíveis a quem já viveu longa vida, a quem já viu muita coisa neste mundo de Deus Todo-Poderoso. Este mundo infestado de um ror de outros deuses menores.
Nesta fase da minha vida, faço equações literais quando entro no campo bárbaro da reflexão. Dá-me um certo alento certificar que apesar de já ter vivido muitos mais anos que certos parentes que eram, na época da minha juventude, classificados como os mais velhos da família, pertenço a uma típica família de centenários. Tenho raiz de um algarvio de Loulé, Manuel Jorge de Sousa Calado que, por força do Destino se tornou soba branco no Libolo, o primeiro de todos os colonos, patrono de enorme família que agarrou o dom de viver muito tempo, e que ainda hoje destaca a sua marca particular de sobrevivência, em Angola e em várias partes do mundo. Ganharam fama de terem bebido o elixir da longa vida.
Indo ao que mais importa, o tempo tem passado por mim, e por toda a gente, de forma surpreendente. Por vezes, caoticamente. Sinto-o, e por vezes até tenho a sensação de que a vida está a ser ingrata comigo, a querer pregar chatas partidas. Vejo-a a esgotar-se rápido demais. É a idade, meus amigos, é ela a fazer a lei da vida.
Na verdade, vivo um tempo de vida difícil, que já não suporta a pressão e o stress que, sem avisar, me tomam constantemente de assalto, trazendo consigo aquela angustiante sensação de que já há pouco tempo para se fazer aquilo que gostaríamos de fazer. E de dizer, de soltar cá para fora o que temos estrangulado na garganta. Em suma, vivo o tempo em que se corrigem males que andamos a praticar por aí, de pedir desculpas a quem injustamente foi por nós maltratado – quem nunca fez mal a ninguém que atire a primeira pedra – e, claro, de apontar erros a quem ainda não tivemos coragem ou oportunidade para o fazer justa e convenientemente.
Este exercício conduz a situações que ao longo dos nossos mais pujantes anos de vida activa constituíram o nosso quotidiano. O fabuloso dia-a-dia mwangolé, moldou, em larga medida, o nosso estilo de ser, estar e de pensar. Foi no tempo em que o certo e o errado, o poder de decisão e a força do centralismo democrático obedeciam a outros princípios e mais se confundiram com os preceitos da democracia. Era uma confusa mistura, com tudo a vigorar numa sociedade selecta que tinha isso como o mais importante da vida e se dizia estar preparada para promover a crítica e a autocrítica.
Entretanto, o tempo, na sua voragem, varreu coisas que eram boas, faziam voga e vão fazendo falta entre nós. A ventania trouxe a omissão de certas virtudes, atirando para as catacumbas do olvido palavras de ordem, orientações que apelavam ao respeito e à verdade. Hoje, as coisas mudaram drasticamente. De repente, passamos a ver promovidos a altos cargos, velhos paladinos de versos libertários, rigorosos adeptos do bem e da verdade, donos das mais honestas análises, de soberbos depoimentos assentes na justiça. São precisamente, alguns dos personagens que estão a pecar hoje por defeito, por coisas inexplicáveis, sem classificação. São pessoas que vão-me merecendo nestes dias que correm frenéticos, esta e outras considerações. Para quê, tamanho desvario?
Acreditem que não gostaria de abordar o assunto que trago a seguir, dada a sua delicadeza e o cenário que me obriga a fazê-lo. Porém, os factos obrigam-me a desatar esta coisa que anda colada à minha garganta e que há muito se prende, irritada, à ponta da língua. Os leitores atentos recordarão que dei conta de certos assuntos nesta coluna, na altura em que se preparava o “desmantelamento” da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde. Terão merecido, certamente, a importância de sempre, ou seja, nenhuma. Não impede, no entanto, que insista.
Como é do domínio público, a decisão não obedeceu aos princípios éticos utilizados em casos desta natureza e tomou os seus efeitos sem que se tivesse um mínimo de respeito pela qualidade de inquilino da Associação que havia, há mais de trinta anos e no estrito cumprimento da lei do inquilinato, cumprido com todas as suas obrigações. Que tendo investido na estrutura, para além de sonhos, também dinheiro considerável, apostou em pequenas áreas de desenvolvimento da nossa rica cultura.
Apesar disso, o Ministro Filipe Zau, não deu qualquer importância a este importante aspecto dos vínculos contratuais das estruturas em causa com o Ministério que dirige. Jamais esquecerei a ameaça feita na altura, ao telefone. “Se se armarem em espertos, chamo o Homem e resolvo o problema”. O Homem de quem falava, era o novíssimo Ministro do Interior, que acabava de tomar posse.
Aquelas duras palavras obrigaram-me a pensar. Não podia ser o mesmo Filipe Silvino Zau, o artista, o escritor, cúmplice nos nossos desabafos, crítico das makas desencantadas da nossa cultura. O homem que me falava esquecia todo o passado partilhado no interior daquela casa. Uma casa que, curiosamente, o soube homenagear. Afinal é fácil esquecer, mas eu jamais esquecerei as palavras do Filipe.
Mesmo de longe, tenho acompanhado a evolução do caso e das obras que se fazem no Nacional Cine-Teatro. Alcançou-se este período em que se assiste a uma corrida frenética, aparentemente com um único objectivo. Apresentar obra bonita no Cinquentenário da Independência de Angola. O que não deixa de ser louvável, pese embora o esquecimento do passado, tudo o que nos ligava anteriormente. Reconheça-se que não é bonito atropelarem-se desta maneira regras, exibindo apenas a satisfação do imenso ego que não se esconde.
Foi aplicado o correctivo aos impertinentes caxindenses que afrontaram Sua Excelência? Muito bem! O futuro dir-nos-á, se justa se injustamente. A vida corre nessa louca velocidade mencionada no início deste texto e, nesse contexto, o caso conheceu por estes dias, um novo “irritante”, não sei se inesperado ou não. Resume-se no seguinte.
Apesar de contar com a protecção dos homens do Ministro Homem, não foi possível ao Ministério da Cultura proteger o que ainda resta do património da Associação Chá de Caxinde.
Um enorme gerador de 120 kvas ou mais, objecto de grande porte, foi há dias desviado, roubado é o termo mais apropriado, sob o olhar silencioso de quem anda, às ordens do Ministério da Cultura, a restaurar o Nacional Cine-Teatro. E apesar da queixa apresentada a quem de direito, de estar devidamente identificado em fotos e vídeos o camião usado para a prática do acto criminoso, ainda não foi possível descobrir o veículo pesado e o seu condutor, nem recuperar o dito gerador. Em meu entender, chegou a altura da equipa do Ministro Zau solicitar o apoio concreto dos homens do Ministro Homem, tendo em vista a recuperação do gerador e a devolução ao seu legítimo proprietário. Anseio saber se a justiça será praticada, se enfiam os bandidos e os seus cúmplices na cadeia. Se isso não acontecer nos próximos dias, ficarei com uma péssima impressão, não apenas de quem se encarrega da obra, como da (in) eficácia da nossa polícia.
Não bastasse este facto vergonhoso, assinala-se ainda outro flagrante caso de falta de respeito. Pela Chá de Caxinde, pelos seus membros, pela literatura e pelos escritores, de um modo geral. Na verdade, quero referir-me à forma como foram tratados os azulejos com os nomes dos escritores editados pela Editora e Livraria Chá de Caxinde (depois da União dos Escritores Angolanos, a primeira editora angolana criada por angolanos no pós-independência). Durante anos foram admirados por todos os visitantes da emblemática casa de cultura.
No frenesim das obras, foram literalmente atirados para o lixo os azulejos que tinham gravados nomes de figuras importantes e respeitáveis da nossa literatura. De alguns estrangeiros, igualmente. Um gesto pouco cuidadoso que não foi acompanhado sequer por um pedido de desculpas pela forma selvagem, boçal, como foi praticado.
Não me venham dizer que não era possível salvarem-se as peças, de um simbolismo enorme, só não reconhecido por quem só tem como importante, a força das suas ideias alicerçadas num efémero poder, como são os poderes dos Ministros nesta República. São poderes que impedem, estupidamente, formas elementares de boa educação, de diálogo ou de simples explicação, mas que não impedem a indignação popular por atitudes tão escusadas.
As imagens que se juntam a este texto, são elucidativas. Percebe-se o conjunto de azulejos colados ao muro que circundava a área recreativa da agremiação e que tinham estampados os nomes de cerca de cem escritores, talvez mais, editados pela Editora e Livraria Chá de Caxinde. Uma iniciativa elogiada pela sociedade cultural, enaltecida em variadas ocasiões. Pois bem, no decurso dos trabalhos de restauração que correm a todo o gás, este conjunto de azulejos simbólicos, do maior valor para quem respeita a literatura, foi simplesmente abandalhado.
Não tento com este texto ilustrar a minha capacidade de criticar. Tento apenas evitar que se passe um pano de limpeza por cima deste acto sujo e indecoroso que faz parte de um conjunto de outros que marcam negativamente, nos dias que correm, a cultura do nosso país.
Com isto termino. Apresento os meus cumprimentos, esperando pelos meus leitores e amigos, no próximo domingo, à hora do matabicho.
Fernão Ferro, Portugal, 27 de Julho de 2025

Pena que o poder produza tão maus resultados.
Pena que se esteja sempre a produzir país novo
Pena que já não haja quase Luanda nenhuma