
RECADOS DA CESALTINA ABREU(20)
“O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas”
O “estado idiotizador” é um conceito crítico para descrever um sistema político que recorre à propaganda, ao controlo da educação, à censura e à manipulação da informação para alienar a população. O objectivo é reduzir a capacidade crítica dos cidadãos, tornando-os passivos, dóceis e inclinados a aceitar, sem questionar, a autoridade e as políticas do grupo dominante.
A finalidade é manter a submissão e o controlo social, evitando críticas, revoltas e pensamento independente. Para isso, recorre-se a curricula superficiais, à doutrinação (uma educação para obedecer, não para pensar), à reprodução acrítica de conhecimentos, ao controlo dos meios de comunicação, à desinformação e a programas culturais e de entretenimento vazios e descontextualizados. O resultado é a “sociedade de súbditos”, em vez da “sociedade de cidadãos” — como analisado por Mahmood Mamdani em Citizen and Subject (1996).
O grande objectivo deste “estado idiotizador” é a consolidação da idiocracia. Idiocracy (2006), filme satírico de ficção científica, retrata uma sociedade futura empobrecida intelectualmente, fruto de um longo processo de degradação sociocultural . O alerta é claro: “O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas”. Apesar de inicialmente silenciado, o filme tornou-se, anos depois, um fenómeno viral — talvez porque descreve desconfortavelmente o presente.
Algumas das principais metas do “estado idiotizador” — infelizmente reconhecíveis na nossa realidade — incluem:
1. Impedir uma educação de qualidade (como acima referido);
2. Criar oportunidades apenas para poucos, alimentando clientelas e desigualdades que impedem solidariedades amplas;
3. Produzir uma media inútil, estatizada ou controlada, promotora de propaganda e não de pensamento crítico
4. Manter um sistema de saúde falido, onde poucos têm acesso e a pobreza mata;
5. Cobrar muitos e altos impostos sem retorno em serviços públicos;
6. Garantir a impunidade: a justiça não é cega — é paga para não ver;
7. Assegurar que tudo funcione mal, mantendo os cidadãos ocupados, exaustos e com a vida adiada.
A estes, somam-se outros factores igualmente estruturantes:
8. Promover o desemprego — quem trabalha, cresce, reivindica;
9. Não investir em desenvolvimento tecnológico, mantendo a economia dependente da exportação de matérias-primas, a par da desindustrialização e do ‘abandono’ da agricultura, implica a importação de tudo, incluindo de produtos culturais e conceitos vazios de contexto, como ‘desenvolvimento’, ‘accountability’, parcerias público-privadas’, entre outros;
10. Não investir em investigação, produção de novos conhecimentos com incorporação de conhecimentos autóctones/ locais, e extensão universitária ao serviço da produção.
Importa, contudo, perguntar: o que podemos nós, cidadãos, fazer para não sermos cúmplices deste sistema? Isolados, somos mais facilmente neutralizados. A resposta passa pela acção cívica colectiva, pela construção do sentido de comunidade e pela resistência ao individualismo que o sistema promove.
Precisamos estar atentos aos mecanismos de manipulação que visam fragmentar os movimentos cidadãos, e de gerar evidências sobre a vida real — tanto dos efeitos do “estado idiotizador” como das alternativas construídas pelos cidadãos — para impedir a manipulação das percepções.
Desejando saúde, cuidados e coragem neste domingo, recordo George Orwell, em 1984: “Futebol, cerveja e, acima de tudo, apostas, preenchiam o horizonte das suas mentes — controlá-los não era difícil” .
Kandando daqui!










