ANGOLA: E, SE OS MARIMBONDOS NÃO FOSSEM CANALHAS?

POR: CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI

Quando o Estado deixa de ser um banquete reservado a poucos e passa a ser uma mesa pública com regras, muitos marimbondos descobrem subitamente que sabem trabalhar, investir, produzir e até pagar impostos.

Em Angola, a política tem frequentemente a estranha capacidade de transformar metáforas em armas. Palavras aparentemente simples passam a carregar o peso de acusações, ressentimentos e batalhas simbólicas. Foi assim que, há alguns anos, os “marimbondos” entraram definitivamente no vocabulário político nacional. E, o meu irmão mais novo, o Edú Humanista e “sus muchachos” fazem disto o seu refrão de cada dia, tal como o Pai, Nosso…

Na natureza, o marimbondo é apenas um insecto: pequeno, inquieto, às vezes agressivo quando provocado, mas, acima de tudo, parte de um ecossistema que procura sobreviver. Contudo, no imaginário político angolano, o marimbondo deixou de ser um simples habitante do mundo natural para se tornar o símbolo de uma elite predadora, voraz e insensível às dificuldades do povo.

A metáfora pegou. Tornou-se popular. Foi repetida em discursos, debates televisivos, redes sociais e conversas de rua. Para muitos, identificar os “marimbondos” significava identificar os responsáveis pela corrupção, pelo saque dos recursos públicos e pelas desigualdades que ainda marcam a sociedade angolana.

Mas a política, tal como a vida, raramente é feita apenas de certezas absolutas.

E se os marimbondos não fossem canalhas?

A pergunta pode parecer provocadora, talvez até herética num País onde a narrativa da luta contra a corrupção ganhou estatuto quase moral. No entanto, vale a pena interrogá-la, porque as sociedades que avançam são justamente aquelas que têm coragem de questionar as suas próprias narrativas.

Talvez o problema não esteja apenas nos marimbondos.

Talvez o problema esteja no sistema que os produz.

Ao longo de décadas, Angola construiu um Estado poderoso, centralizado e altamente dependente da renda petrolífera. Nesse modelo, o acesso ao poder político tornou-se também acesso privilegiado à riqueza nacional. Quando o poder e a riqueza se confundem, a tentação da captura do Estado torna-se quase inevitável.

Assim, mais do que indivíduos isolados movidos por pura maldade, o que muitas vezes se viu foi a emergência de uma cultura política onde o sucesso estava ligado à proximidade do poder. Um sistema que premiava a lealdade política mais do que o mérito institucional.

Nesse ambiente, os chamados “marimbondos” não surgiram do nada. Foram, em certa medida, filhos de um modelo.

Isso não significa inocentar quem abusou do poder ou desviou recursos públicos. A responsabilidade individual continua a ser essencial em qualquer Estado de direito. No entanto, limitar o debate político à caça simbólica de marimbondos pode ser uma forma simplista de enfrentar um problema estrutural muito mais profundo.

Porque, se amanhã todos os marimbondos desaparecessem, quem garante que o sistema não produziria novos?

A história política de muitos países mostra que combater a corrupção não é apenas prender culpados ou denunciar escândalos. É sobretudo transformar instituições, reforçar transparência, criar mecanismos de controlo e promover uma cultura pública baseada na responsabilidade.

Em outras palavras, é preciso mudar o terreno onde os marimbondos prosperam.

Talvez por isso a pergunta inicial seja menos absurda do que parece. Quando se diz que os marimbondos são canalhas, corre-se o risco de transformar um problema político em caricatura moral. E quando os problemas são reduzidos a caricaturas, as soluções tendem a ser igualmente superficiais.

Angola encontra-se hoje num momento de reflexão sobre o seu futuro. O País carrega cicatrizes profundas de uma longa guerra, mas também traz consigo uma imensa energia social, cultural e económica que ainda está por realizar plenamente.

O verdadeiro desafio talvez não seja apenas identificar os marimbondos.

O verdadeiro desafio é construir instituições tão sólidas que nenhum marimbondo, por mais poderoso que seja, consiga transformar o Estado em colmeia privada. Porque, no fim das contas, o problema nunca foram apenas os marimbondos.

O problema sempre foi a fragilidade do apiário político onde eles aprenderam a reinar. E se Angola quiser realmente virar a página da sua história, talvez precise de fazer algo mais difícil do que simplesmente apontar culpados.

Se os marimbondos deixarem de se comportar como canalhas, não será por milagre moral nem por súbita conversão patriótica. Talvez seja apenas preciso retirar-lhes o mel fácil do Estado, tapar as frestas da impunidade e iluminar bem as salas onde antes reinava a penumbra administrativa. Com instituições sérias, contratos transparentes, tribunais independentes e cidadãos que já não aceitam o velho teatro da esperteza nacional, muitos marimbondos descobrirão subitamente uma virtude que nunca imaginaram possuir: a honestidade.

Quando o Estado deixa de ser um banquete reservado a poucos e passa a ser uma mesa pública com regras, muitos marimbondos descobrem subitamente que sabem trabalhar, investir, produzir e até pagar impostos. Afinal, até os mais barulhentos ferrões podem aprender boas maneiras quando o apiário passa a ter dono: o povo.

Como uma boa mwamba de galinha rija e um bom funje de sábado, nunca foram canalhas, fico nestes. 

Um bom final de semana à todos. 

*Menga-Ma-Kimfumu

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