ANANGOLA E LIGA NACIONAL AFRICANA SÍMBOLOS DE RESISTÊNCIA

MARIA LUÍSA ABRANTES

Porque é que o Presidente João Lourenço, em vez de autorizar a construção de uma estrada para o Mussulo, que vai ser tudo menos para os turistas, (porque será invadida por parasitas), não utiliza essa verba para construir mais escolas?

Em todo o mundo, a sociedade civil é escrutinada pelos sistemas políticos, porque é o barómetro dos anseios e das dificuldades das populações autóctones. Em Angola, os colonizadores portugueses muito cedo se aperceberam, que os angolanos como um conjunto de povos com várias línguas e, como todos os outros povos, sentiam e expressavam-se através da cultura. 

A primeira fase de aculturação dos angolanos, consistiu em tornar o português a língua comum oficial, o que facilitava aos colonizadores os contactos para tiraram proveito das muitas riquezas do país. Sendo Portugal um país pequeno, com um número reduzido de habitantes, necessitava de trabalhar com os nativos de Angola em todos os sectores para seu benefício. O racismo era uma realidade, esbatido muito envergonhadamente ao longo dos anos, do ponto de vista sócio-económico e nas escolas do Estado que só existiam nas capitais dos Distritos. 

⁠Nessa senda, na década de 1930, foi autorizada pelo Governo português  à sociedade civil angolana, a criação de associações culturais, uma das quais a ANANGOLA. A Associação dos Naturais de Angola, com sede em Luanda, tinha como objecto social a educação e a cultura. O Estado português concedeu fundos suficientes à agremiação, para a construção da sede num bairro nobre da cidade, onde para além das actividades culturais, existia uma escola do ensino elementar (primária), um ginásio e um posto médico, assim como construíram várias creches para os angolanos mais carenciados. 

⁠A primeira creche situada no bairro do Café (à Sagrada Família), numa residência onde está hoje a sede da DHL, foi ocupada pelo general Faceira (que tanto se lamentou, quando lhe tiram o rebuçado), para alugar, logo após a independência. O mesmo destino, tiveram outras instalações dessa associação, sem que ninguém levantasse a voz. 

⁠Enquanto o colonizador esperava que essas associações culturais se reduzissem a dar farras e o ensino básico, as mesmas constituíram um marco da afirmação da identidade não apenas cultural, mas, sobretudo, de identidade angolana. A ANANGOLA, teve extrema importância no despertar da consciência dos angolanos, pela luta de libertação do país do jugo colonial. 

Os fundadores da Liga Nacional Africana, numa foto tirada em 1930. Da esquerda para a direita:
José Cristino Pinto de Andrade, Manuel Inácio Torres Vieira Dias, Gervásio Ferreira Viana

e Sebastião José da Costa

⁠A década de 50 caracterizou-se por ser um período de grande produção literária de escritores angolanos, que viria a ser conhecida como literatura de resistência angolana. A maioria desses escritores eram membros do ANANGOLA e outros eram membros da Liga Nacional Africana. No início dos anos 50, Viriato da Cruz e Mário Alcântara Monteiro, então à frente do Departamento Cultural, criaram a revista MENSAGEM, entre 1952/53, iniciando a literatura angolana de protesto e consciencialização.

⁠Da mesma forma, o governo português autorizou a criação da LIGA NACIONAL AFRICANA, no mesmo período que o ANANGOLA, em 1930, com o mesmo objectivo. A LNA, iniciou com Manuel Inácio Torres Vieira Dias, Cristiano Pinto de Andrade, Gervasio Ferreira Viana e Sebastião José da Costa, tendo com objecto social a actividade cultural, numas instalações provisórias. A 28 de Maio de 1953, foi inaugurada a sua sede definitiva num edifício que resiste à erosão, pela robustez da sua construção. O objecto social foi alargado ao ensino e à formação profissional. Para além do ensino primário diurno, havia o ensino primário nocturno para trabalhadores. Havia cursos de corte e costura e de datilografia. O ensino primário dispunha de uma quadra de basketball, uma enfermaria e um pátio para recreio. 

⁠Logo após a independência, militantes do MPLA ligados a sede, autorizaram que se retalhasse o pátio (quintal) da Liga Nacional Africana entre eles, para fazerem a três pancadas, espaços de aluguer para farras e para velórios, a semelhança do que fizeram com o quintal do Club Ferroviário (do Estado).

⁠O mesmo destino teve o LAR DO DESPORTISTA, que para além de estágios, chegou a acolher com dormidas e alimentação, todos os atletas e treinadores participantes nos jogos Luso/Brasileiros. O Lar do Desportista foi simplesmente “engolido” pelo sr. governador Gonçalves Muanduma, nas vestes de auxiliar do Poder Executivo, à frente do Departamento Ministerial da Juventude dos Desportos, porque está a estranhar e nunca fez nada de jeito. Hoje em dia, os atletas não têm nenhum local condigno para estagiar. 

O meu pai, foi um dos presidentes da Liga Nacional Africana, que organizou o primeiro comício apartidário,  após o 25 de Abril de 1974, para acolher e celebrar a libertação de todos os presos políticos. Foi ainda delegado do ANANGOLA no Lubango, Cuanza Norte e Cuanza Sul, “pro-bono” (a título gratuito pelo bem) , acumulando com as suas funções nas Direções Serviços Geográficos e Cadastrais e nos Serviços Hidráulicos.

⁠O Presidente José Eduardo dos Santos, resistiu às tentativas dos seus camaradas de darem um fim similar ao do Palácio D. Ana Joaquina (queriam fazer uma parceria com a CATERMAR), à Liga Nacional Angolana. O Presidente José Eduardo dos Santos, diga-se o que se disser, era um estudioso da génese da luta de libertação para a independência de Angola.  

⁠Apresentado-se o Presidente João Lourenço como historiador e querendo promover o turismo, estranhamos a sua falta de sensibilidade, ao pretender impor que uma imóvel  de uma instituição autónoma e com personalidade jurídica, passe para a esfera jurídica do Estado por despacho, porque lhe apetece. Em vez desse grande disparate, deveria era conceder mais fundos de apoio aos Centros Recreativos Culturais que o colono deixou e criar novos, com fins sociais bem definidos. 

Cadê os assessores do PR?

⁠Porque é que o Presidente João Lourenço, em vez de autorizar a construção de uma estrada para o Mussulo, que vai ser tudo menos para os turistas, (porque será invadida por parasitas), não utiliza essa verba para construir mais escolas?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR