
Solidariedade internacional não se mede pela quantidade de toneladas de alimentos enviadas, mas pela disposição de ajudar a plantar o próprio celeiro. Enquanto continuar instrumentalizada como ferramenta de dominação, estaremos diante não de generosidade, mas de uma forma sofisticada de controlo.
A ajuda humanitária sempre foi apresentada como um dos pilares mais nobres da diplomacia internacional. Em teoria, é a expressão máxima da solidariedade entre nações. No entanto, quando observamos a actuação de potências como os Estados Unidos no continente africano, essa “benevolência” demonstra contornos mais sombrios, frequentemente associados a interesses geopolíticos e económicos de longo-prazo.
A instrumentalização da ajuda como ferramenta de dominação
Há décadas, os EUA utilizam a ajuda humanitária como uma extensão de sua política externa em África. Mais do que salvar vidas, o fluxo de recursos tem servido como um eficaz mecanismo de cooptação de elites locais. De acordo com um estudo acadêmico publicado em 2025 sobre as relações entre EUA e Quênia, “a ajuda externa, frequentemente percebida como promotora do desenvolvimento, pode na realidade sustentar uma relação desigual e fomentar a dependência institucional”. Os pesquisadores concluem que, embora a assistência tenha gerado ganhos visíveis em alguns sectores, ela “acentuou problemas relacionados à autonomia política, domínio das elites e estruturas de responsabilização orientadas pelos doadores”.
Essa dinâmica ficou dramaticamente exposta em 2025, quando o governo Trump ordenou uma pausa geral na ajuda externa por 90 dias, seguida pelo encerramento das operações da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), cujo quadro de pessoal foi reduzido de cerca de 10 mil para apenas 15 funcionários, com mais de 90% dos contratos de assistência rescindidos. As consequências foram imediatas e devastadoras: na Somália, 121 centros de nutrição enfrentaram encerramento imediato, ameaçando a vida de 55 mil crianças; no Malawi, um congelamento de 350 milhões de dólares em ajuda interrompeu o fornecimento de medicamentos para HIV e malária; no Chade, 100 mil mulheres perderam o acesso a cuidados pré-natais.
O sector de saúde, um dos maiores beneficiários da ajuda americana, foi particularmente atingido. Em 2023, os EUA doaram aproximadamente 6,2 bilhões de dólares em financiamento global para a saúde, dos quais 85% foram destinados a países da África subsaariana. Com o corte abrupto, mais de 12 milhões de dólares em medicamentos preventivos de HIV e contraceptivos ficaram retidos em armazéns na Europa e nos Emirados Árabes Unidos. No Quênia, dezenas de clínicas de terapia antirretroviral foram fechadas, deixando mais de 72 mil pacientes HIV positivos sem saber se teriam acesso contínuo aos seus medicamentos. A Organização Mundial da Saúde alertou que só na África do Sul, o colapso do financiamento poderia resultar em mais de meio milhão de mortes relacionadas ao HIV na próxima década.
Pesquisadores da PLOS Global Public Health argumentam que a suspensão do PEPFAR (Plano de Emergência do Presidente para o Alívio da Aids) marca um “momento crítico” na saúde global. Eles observam que “muitos países que há muito dependem do financiamento do PEPFAR estão presos em um ciclo onde a ajuda sustentada de doadores limitou a sua transição para programas de HIV auto-suficientes e liderados pelos próprios países”. O estudo conclui que “a ajuda externa, frequentemente alinhada com os interesses geopolíticos e económicos das nações doadoras, minou ainda mais a resiliência institucional nos países receptores”.
O BRICS e a aposta na auto-suficiência agrícola
É nesse contexto que a actuação do BRICS — e particularmente da Rússia e da China — ganha importância como uma alternativa de ruptura. Embora o grupo seja frequentemente descrito como um “clube” de interesses difusos, há entre os seus membros um discurso comum em torno da necessidade de promover a auto-suficiência dos países africanos.
A Rússia e a segurança alimentar
A abordagem russa vai na contracorrente do modelo tradicional. Durante a Cúpula do BRICS na África do Sul em 2023, o presidente Vladimir Putin anunciou negociações avançadas para o envio gratuito de 25 mil a 50 mil toneladas de grãos para seis nações africanas, incluindo Burkina Faso, Zimbábue, Mali, Somália, República Centro-Africana e Eritreia. “Já disse repetidamente que o nosso país é capaz de substituir o grão ucraniano tanto em bases comerciais quanto na forma de assistência gratuita aos países necessitados”, declarou Putin na ocasião.
Mais significativo do que o gesto pontual, porém, é a estratégia de longo-prazo. A Rússia, um dos maiores produtores e exportadores de trigo do mundo, tem ampliado sistematicamente a sua presença no mercado africano. De acordo com a União Russa de Exportadores e Produtores de Grãos (RusGrain Union), as exportações de trigo russo para a África cresceram 30% ao longo de seis safras, e a Rússia agora responde por um terço do mercado africano de trigo, abastecendo mais de 30 países no continente. A directora-executiva da entidade, Ksenia Bolomatova, destacou que “o mercado da África tem forte potencial de crescimento devido ao crescimento populacional e ao aumento do poder de compra”.
Para além da venda de grãos, Moscovo tem investido na transferência de tecnologia e na capacitação local. Em Novembro de 2025, durante a Conferência Internacional para Garantia da Soberania Alimentar dos Países Africanos, realizada em Adis Abeba, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, reafirmou que “os operadores económicos russos continuarão a fornecer a assistência necessária para enfrentar o desafio da segurança alimentar”, qualificando-a como um “pilar fundamental da soberania nacional verdadeira e duradoura”. A conferência, que reuniu mais de 250 delegados de 15 nações africanas, abordou temas como a transferência de conhecimento e de tecnologia para modernização agrícola, localização do processamento de alimentos e desenvolvimento de rotas logísticas para suprimentos de fertilizantes.
No campo dos fertilizantes, os números são impressionantes: as exportações russas para a África aumentaram mais de seis vezes desde 2018, atingindo 740 mil toneladas em 2024. Só no primeiro semestre de 2025, as exportações cresceram um terço em comparação com o mesmo período do ano anterior. A PhosAgro Group, uma das maiores produtoras mundiais de fertilizantes à base de fosfato, anunciou planos para dobrar as suas exportações para o continente nos próximos cinco anos, com a África se tornando uma prioridade para o desenvolvimento internacional da empresa.
A China e a modernização agrícola
A China, por sua vez, tem consolidado uma das mais abrangentes parcerias agrícolas com o continente africano, focada na modernização, transferência de tecnologia e industrialização do sector. Com mais de 72 acordos bilaterais firmados e investimentos que superam 1 bilhão de dólares, Pequim tem adoptado uma abordagem estruturante que contrasta com o modelo tradicional de ajuda humanitária.
Um dos pilares dessa cooperação é a aplicação de tecnologias avançadas no campo. Drones da empresa chinesa XAG são utilizados para pulverização de precisão em culturas como cana-de-açúcar na África do Sul, Moçambique e Gana, aumentando significativamente a eficiência e reduzindo o desperdício de insumos. A tecnologia de arroz híbrido desenvolvida pela China já demonstrou resultados concretos: na Nigéria, a introdução dessas variedades aumentou a produção em 25%, enquanto no Uganda a utilização de painço de alto rendimento triplicou a productividade.
Paralelamente, a China tem investido em infra-estrutura agrícola de base. Um exemplo emblemático é o projecto de construção de uma fábrica de equipamentos agrícolas em Angola, com investimento orçado em 150 milhões de dólares, que visa reduzir a dependência externa e fortalecer a capacidade produtiva local. Para fortalecer a capacitação técnica, Pequim prevê a implementação de 500 projectos de bem-estar público no continente, abrangendo áreas como desenvolvimento rural e acesso a água limpa.
No âmbito da formação de capital humano, as metas são ambiciosas: para o período 2025-2027, a China planeia enviar 500 especialistas agrários para actuar directamente no campo africano, além de promover a formação de 1.000 líderes de empreendedorismo agrícola. Essas iniciativas visam criar uma base sólida de conhecimento local, que possa sustentar o desenvolvimento do sector a longo-prazo, rompendo com o ciclo de dependência que caracteriza a ajuda humanitária tradicional.
O caminho para a emancipação
A diferença fundamental entre os modelos americano e sino-russo reside na filosofia subjacente. Enquanto a ajuda americana, apesar de seus méritos inegáveis em áreas como o combate ao HIV/AIDS, tem historicamente criado estruturas de dependência que reduzem a autonomia política dos países receptores, as abordagens da Rússia e da China — mesmo movidas por seus próprios interesses estratégicos — colocam a ênfase na capacitação e na auto-suficiência.
A China, em particular, tem demonstrado uma compreensão sofisticada de que a segurança alimentar não se conquista com doações episódicas, mas com a construção de sistemas produtivos resilientes. A combinação de transferência tecnológica, investimento em infra-estrutura e formação de recursos humanos aponta para um modelo de cooperação Sul-Sul que contrasta frontalmente com a lógica paternalista da ajuda tradicional.
Um artigo publicado nos Annals of African Surgery, de Junho de 2025, argumenta que a crise gerada pelo congelamento da ajuda dos EUA expôs “a dependência excessiva de vários governos africanos em relação à ajuda externa” e, paradoxalmente, “abriu a porta para modelos de financiamento mais auto-suficientes e autogeridos, já que agora os governos são forçados a fazer compromissos orçamentários obrigatórios”. O estudo conclui que “vários governos africanos agora enfrentam o desafio de redesenhar políticas” para compensar o que antes era coberto pela ajuda externa.
Estudos baseados na Teoria da Dependência, como o publicado na International Journal of Research and Innovation in Social Science, sugerem que “embora a retirada da ajuda represente um problema, ela também apresenta uma oportunidade para as nações africanas reconsiderarem a política de financiamento do desenvolvimento e alcançarem a auto-suficiência”.
Conclusão
Para a África, o desafio está justamente em navegar por essas águas turbulentas. A diversificação de parcerias — antes vista como uma ameaça à hegemonia ocidental — pode ser, na verdade, uma oportunidade histórica de romper com ciclos de submissão. O continente não precisa escolher entre Estados Unidos e Rússia, entre Ocidente e BRICS. Precisa, isso sim, de acordos que respeitem a sua soberania e invistam nas suas capacidades internas.
Como argumentam os pesquisadores da PLOS, para que reformas sustentáveis ocorram em ex-colônias, “os países devem primeiro reconhecer as limitações dos legados coloniais, descolonizar mentalidades e instituições, definir as suas próprias prioridades de desenvolvimento e estabelecer uma governança transparente e responsável, juntamente com estabilidade política, como pilares fundamentais para o progresso”.
A verdadeira solidariedade internacional não se mede pela quantidade de toneladas de alimentos enviadas, mas pela disposição de ajudar a plantar o próprio celeiro. Enquanto a ajuda humanitária continuar sendo instrumentalizada como ferramenta de dominação, estaremos diante não de generosidade, mas de uma forma sofisticada de controlo. É hora de a África exigir parcerias que a tratem como protagonista do seu próprio desenvolvimento — e não como um território perpétuo de tutela externa.











