
RECADOS DA CESALTINA ABREU (44)
O que todos estes contextos têm em comum? Petróleo! Curiosamente, a todos os lugares onde os EUA vão ‘levar’ democracia ou zelar pela sua segurança, encontram petróleo! Acaso?
Se perguntarmos a um site de IA: “Cite um dos principais derivados do petróleo”, a resposta será algo como: gasolina, gasóleo, GLP, querosene, lubrificantes, asfalto, parafina, plásticos, solventes ou borracha sintética. Ou seja, produtos obtidos pelo refino do petróleo. Embora o petróleo esteja frequentemente associado a conflitos geopolíticos, a resposta refere-se a produtos materiais, não às suas consequências sociais ou políticas.
Mas se a pergunta for: “Uma das principais causas de guerra são os recursos, em particular o petróleo?”, a resposta é afirmativa. A disputa por recursos naturais, sobretudo petróleo, é frequentemente apontada como uma das causas centrais de guerras e conflitos geopolíticos. Como motor estratégico da economia global e do poder militar, a dependência energética tem gerado invasões, sanções e instabilidade geral.
Conflitos envolvendo países produtores – como a Rússia – podem provocar desabastecimento e elevar o preço do barril, desencadeando crises económicas globais. Em outros casos, como na Venezuela, as vastas reservas petrolíferas tornaram-se foco de disputas políticas, bloqueios e sanções internacionais.
A necessidade de garantir acesso ao petróleo para frotas navais e aéreas, bem como para a indústria, alimenta um estado de tensão permanente na política internacional.
A geopolítica do petróleo
No livro Blood and Oil (2004), o cientista político norte-americano Michael Klare sustenta que a competição por recursos energéticos – especialmente petróleo – tem sido uma das maiores fontes potenciais de conflitos nas últimas décadas. Na obra, analisa o petróleo como instrumento de política nacional e de intervenção internacional, particularmente pelos Estados Unidos, onde é visto como pilar da segurança nacional. Essa lógica tem influenciado intervenções militares, sobretudo no Oriente Médio, para garantir o fluxo estável da energia e influenciar os preços.
Ao longo da história recente, vários conflitos foram alimentados, directa ou indirectamente, por disputas ligadas ao petróleo.
Segunda Guerra Mundial
Embora normalmente interpretada como uma guerra contra o nazifascismo, o petróleo também teve peso na sua dinâmica. O ataque japonês a Pearl Harbor ocorreu, em parte, após os Estados Unidos limitarem as exportações de petróleo ao Japão em 1941. Na Europa, a ofensiva alemã rumo ao leste visava igualmente as regiões petrolíferas do Cáucaso, como o Azerbaijão.
Golpe de Estado no Irão (1953)
Organizado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, depôs o primeiro-ministro eleito Mohammad Mossadegh após este nacionalizar a companhia petrolífera anglo-iraniana, precursora da BP. O poder acabou entregue ao xá Mohammad Reza Pahlavi, cujo regime terminaria com a revolução iraniana de 1979.
Primeira Guerra do Golfo
Em 1991, após a invasão do Kuwait pelo Iraque de Saddam Hussein, uma coligação liderada pelos Estados Unidos interveio militarmente. O controlo do petróleo do Kuwait e o receio de expansão do poder iraquiano sobre essa riqueza foram factores centrais no conflito.
Invasão do Iraque (2003)
Embora justificada oficialmente pela suspeita de armas de destruição em massa, muitos analistas consideraram que as enormes reservas petrolíferas do país também tiveram peso na decisão de intervir. O Iraque possui uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o que reforçou a percepção de que a energia era um elemento estratégico na crise.
Síria e Iraque (desde 2011)
O petróleo também desempenhou papel relevante nos conflitos envolvendo o autodenominado ‘Estado Islâmico’. Durante a expansão do grupo, campos petrolíferos na Síria e no norte do Iraque tornaram-se uma importante fonte de financiamento, chegando a gerar milhões de dólares por dia.
Venezuela, Irão (2026)
No início deste ano, a intervenção militar dos EUA (“Operação Resolução Absoluta”) resultou na captura de Nicolás Maduro (3 Jan 2026), e em 28 Fevereiro, a coalizão EUA+Israel iniciou a operação ‘Fúria Épica’ contra o Irão para derrubar o regime e acabar com a ameaça à segurança dos EUA.
O que todos estes contextos têm em comum? Petróleo! Curiosamente, a todos os lugares onde os EUA vão ‘levar’ democracia ou zelar pela sua segurança, encontram petróleo! Acaso? Todos estes casos ajudam a compreender por que razão, no tabuleiro mundial, o petróleo continua a ser muito mais do que um simples recurso energético: é também poder, influência e, muitas vezes, conflito. A história sugere que, entre os ‘seus derivados invisíveis’, também se contam rivalidades, estratégias e conflitos.
Talvez por isso, ao longo da história, o petróleo tenha sido menos apenas um recurso natural e mais um espelho das ambições humanas. No fundo, muitas guerras contam-se com bandeiras e discursos – mas também com barris de petróleo. Compreender a geopolítica do petróleo é, também, compreender como recursos naturais podem moldar decisões políticas e destinos de nações. E, por isso, quando se fala de petróleo, a pergunta mais importante já não seja apenas o que ele produz, mas o que estamos dispostos a fazer para o controlar.











