A ESTRANHA ALEGRIA DO EXECUTIVO

MARIA LUÍSA ABRANTES

Nos países desenvolvidos, quando a inflação não é inferior a 2% e o déficit orçamental não é inferior a 3% do PIB, os governos caiem, há eleições antecipadas e os partidos políticos que governam mal dão lugar a outros. 

Nos países desenvolvidos, uma taxa de juros de referência de 19,5% seria um descalabro total para a economia e uma taxa de desemprego acima dos 6% a 8%, sinalizaria problemas insustentáveis de ordem sócio-económica. 

Em Angola, o Executivo congratula-se e com estranha alegria são elogiados os seus membros, em virtude de estimarem para 2025 uma taxa de desemprego acima dos 30,8% (números estatísticos do INE que não são credíveis, estão muito abaixo do real, uma vez que cerca de 80% da população não está controlada pelos centros de emprego). O Executivo regozija-se por manter a taxa de juros de referência de 19,5%; prever uma inflação de cerca de 17,5%; ter roubos de bilhões de kwanzas na AGT, que para tapar os rombos cobra IRT a quem não trabalha e cobra diversas vezes o IP de um mesmo imóvel. 

Em Angola, o Chefe do Executivo talvez se regozije, porque para além de nomear por direito o Procurador Geral da República e escolher os Juízes dos tribunais superiores, segue raramente a classificação dos concursos curriculares. Reúne com os mesmos quando entende e refere publicamente processos em segredo de justiça, interferindo indirectamente na independência desses órgãos do poder judicial.

Como consequência, boa parte das empresas fecham as portas e a classe média encolheu para cerca de 3%. 

Em Angola, o Executivo diz que tudo corre cada vez melhor, mesmo com os entraves que os cidadãos e as empresas se deparam diariamente, para conseguir qualquer documento do Ministério da Justiça, do Ministério do Comércio e Indústria, de qualquer das instituições tuteladas pelo Ministério das Finanças e pelo Ministério do Interior.

O Executivo angolano comemora, ainda que não tenha esclarecido se recuperou os bilhões de dólares roubados por militares dos órgãos de Segurança Presidencial (o caso Lussaty não está esclarecido e desconhece-se se haverá outros casos). Comemora, até demoras propositadas e as extorsões (gasosa) e assassinatos efectuados por membros dos Serviços de Investigação Criminal (SIC). 

O Executivo angolano felicita-se, pela inauguração do aeroporto António Agostinho Neto e do “novo/sucata” comboio Luanda/Aeroporto, que anda mais devagar do que a automotora existente antes da independência. O tal comboio quase não tem assentos e move-se ao mesmo compasso do comboio a carvão de antes de 1974.  Para piorar o “quadro”, a OMATAPALO (como sempre por ajuste directo), construiu o muro ao longo da via-férrea, mas mantêm-se as cabanas encostadas à linha, no espaço interior do muro, possibilitando que os moradores atirem pedras aos vidros das janelas que estão já todos estilhaçados, pondo em perigo a segurança dos passageiros. 

O Chefe do Executivo congratulou-se porque a segurança do país é boa, mas a Administração Trump acabou de incluir os cidadãos angolanos na lista dos países não seguros, barrando a sua entrada, por se permitir que imigrantes ilegais utilizem documentos angolanos para entrar no seu território. 

Angola vem sofrendo diariamente uma invasão silenciosa, sendo a maioria dos imigrantes ilegais provenientes da RDC. Os documentos são conseguidos oficialmente com apenas 2 (duas) testemunhas, junto das brigadas de registo que sempre privilegiam os bairros onde se abrigam os imigrantes da RDC. Em contrapartida, não consta de nenhuma lei, mas existe uma orientação “superior” (será do SINSE???), de que não se pode aceitar cédulas originais de antes da independência, de angolanos autóctones das províncias do Sul e do Norte, que nunca saíram de Angola. Entretanto, alegam que nada podem fazer porque os arquivos novos foram queimados pela UNITA. Assim, os verdadeiros angolanos ficam indocumentados, sem acesso ao ensino e a uma vida melhor enquanto os estrangeiros, indigentes, prosperam com o que mandam para os seus países. Qual o objectivo? 

Num país normal o chefe do SINSE e os seus adjuntos seriam todos demitidos. Sem contar com o facto de terem deixado cidadãos da RDC roubarem diamantes no valor de 6 bilhões de dólares/ano e arrastões de várias nacionalidades roubarem cerca de 500 milhões de dólares/ano de pescado, fora o mercúrio e o ouro. Não é só a gasolina importada que sai pelas nossas fronteiras.

⁠Para terminar a celebração com a “cereja no topo do bolo”, o Executivo continua a permitir que se possa acabar em definitivo com a Baía de Luanda, com entulho. A Baía de Luanda, por si já pequena, corre o risco de desaparecer, porque os novos-ricos do regime “que estão a estranhar”, continuaram a dragar, para continuar a construir arranha-céus dentro da Baía, cartão postal da nossa ex-linda capital. Talvez por isso, tenham nomeado uma ministra do Ambiente incompetente, que (desde que saiu de uma Universidade portuguesa criada para africanos), serve de “pau para toda a obra” e não percebe de nada. Para piorar, é coadjuvada por uma secretária de Estado que saiu da Faculdade directamente para o cargo, porque era necessário acomodar a filha de um então vice-presidente da Assembleia Nacional pela FNLA (equilíbrio tribal), que seguidamente caiu de paraquedas no Bureau Político do partido no poder. 

⁠A curiosidade é saber a quem pertencem os novos imóveis da Baía de Luanda, já que o projecto, no passado, pertencia ao Grupo de Manuel Vicente, Dino e Kopelipa. 

⁠O mesmo perguntaria, sobre todos os empreendimentos privados que pertenciam aos mesmos, paralisados por muito tempo no ano de 2025 e que estão a ser concluídos a todo o vapor. Ou também, sobre a saída da GASSIST, pertencente a Dino, Kopelipa, Manuel Vicente e o filho de um bispo protestante, seria bom recordar, que os mesmos eram acionistas da Mota/Engil, agora contemplada no consórcio de exploração no aeroporto AAN. É só ver a quem poderiam passar as suas acções. Só poderia ser a um sócio num dos muitos empreendimentos em que é testa de ferro, que poderia diluir-se numa empresa ou fundação em paraísos fiscais, como sempre. É só seguir o rasto.

One Comment
  1. A afirmação da se senhora Mena Abrantes, sobre os 2% de inflação, é 3% do défice orçamental, não corresponde com a realidade, actual, o défice em França, finais de 2024 era de 5,8%, a regra na Europa é de 3%, mas passar esse teto não força a queda de um governo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR