
O desfecho poderá não ser apenas uma perda de popularidade, mas o fim de um ciclo histórico, repetindo o desgaste que já faz a SWAPO — outrora inexpugnável — suar para se manter à tona no vento que sufla o Povo do Sudoeste Africano.
A política na África Austral encontra-se num ponto de inflexão. O vento da mudança, que outrora impulsionou os movimentos de libertação ao poder, sopra agora com força contra as antigas estruturas hegemónicas. Na Namíbia, a SWAPO (Organização do Povo do Sudoeste Africano) vive a paradoxal experiência de ser uma “libertadora” que perde terreno nas áreas urbanas, enquanto em Angola, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) enfrenta aquela que se antevê como a maior crise política da sua história, com as eleições de 2027 no horizonte. Se o MPLA pretende evitar um colapso eleitoral e reverter a tendência de perda de apoio verificada desde 2012, a trajectória da SWAPO — com os seus sucessos e fragilidades — oferece uma bússola indispensável, embora de navegação perigosa.
A primeira lição que a SWAPO oferece ao MPLA é a da gestão do capital simbólico da libertação. Tal como o partido namibiano, o MPLA construiu décadas de hegemonia assente no monopólio do discurso da emancipação nacional. No entanto, a história demonstra que este legado tem um prazo de validade eleitoral. A SWAPO viu a sua percentagem de votos cair nas eleições de 2019 para 56%, muito aquém dos 80% a que estava habituada, evidenciando que as novas gerações — os “filhos da paz” que não viveram a luta armada — votam com base nos serviços públicos, empregos e perspectivas de futuro, não na nostalgia da guerrilha.
Para o MPLA, que já assistiu a uma erosão significativa do seu apoio desde os 71% em 2012 para os 51% em 2022 (numa eleição marcada pela abstenção recorde), a bússola aponta para a necessidade de uma renovação discursiva. Insistir exclusivamente no “partido-movimento” e no “sacrifício revolucionário” como moeda de troca política é uma estratégia de retorno decrescente.
A bússola sugere que é imperativo construir uma nova narrativa de legitimidade assente na meritocracia, na inovação e na capacidade de resolver os problemas quotidianos do cidadão comum, sob pena de o MPLA sofrer o mesmo fenômeno de rejeição urbana que atormenta a SWAPO em Windhoek. Recordar que o MPLA perdeu em Luanda.
Em segundo lugar, a questão da reforma agrária e do nacionalismo económico surge como um pilar de sustentação que o MPLA deve observar com atenção. A SWAPO conseguiu manter uma base de apoio rural robusta através de um discurso contínuo sobre a redistribuição de terras e uma postura firme contra o que considera “imperialismo colonial”. A rejeição pública das indemnizações alemãs pelo genocídio do início do século XX por Sam Nujoma, por exemplo, funcionou como um catalisador de mobilização identitária que reacendeu a chama nacionalista nas zonas rurais.
Em Angola, o MPLA enfrenta um dilema semelhante, mas com contornos mais complexos. Enquanto a SWAPO lida com a herança da terra ocupada por colonos brancos, o MPLA geriu uma economia pós-guerra onde a reconcentração de terras nas mãos de elites ligadas ao poder e a falta de diversificação económica criaram um fosso entre o discurso nacionalista e a prática governativa. A bússola da SWAPO indica que, para recuperar apoio, o MPLA precisa de resgatar um discurso de soberania económica efectiva — não apenas retórica antiocidental — mas que se traduza em políticas de industrialização, combate à fome e, crucialmente, na percepção de que os recursos nacionais beneficiam a maioria. Sem essa tradução prática, o nacionalismo torna-se um estandarte vazio.
Todavia, se a SWAPO serve de bússola, ela também sinaliza os recifes onde o MPLA não pode encalhar. O maior erro que o partido governante em Angola poderia cometer seria copiar a estratégia namibiana sem atender às diferenças estruturais. A SWAPO tem enfrentado desafios urbanos devido à incapacidade de responder à crise do desemprego juvenil e à falta de habitação digna — sintomas que em Angola são exponencialmente mais graves. Em Luanda, a crise é multidimensional: o tecido social está desgastado por décadas de má gestão municipal (contrariando o discurso segundo o qual “a vida faz-se nos municípios”), um sector informal gigantesco e uma juventude urbanizada que já não reconhece no MPLA o instrumento da sua ascensão social, uma classe média revoltadae empresários agastados.
Assim, a bússola orientadora para o MPLA não deve ser a imitação, mas a antecipação. Enquanto a SWAPO permitiu que a perda de apoio urbano se tornasse crónica, culminando na formação de partidos dissidentes como o Independent Patriots for Change (IPC), o MPLA tem a oportunidade (e o aviso) de realizar uma “cirurgia” política antes das eleições de 2027. Isso implica três movimentos estruturais:
1. Reforma interna e rotação de liderança: A SWAPO demonstrou que a permanência excessiva das mesmas figuras históricas gera fadiga eleitoral. O MPLA, que já realizou uma transição de José Eduardo dos Santos para João Lourenço, precisa acelerar a oxigenação dos seus quadros, promovendo lideranças locais que não estejam contaminadas pela corrupção sistémica do passado e que dialoguem genuinamente com as associações cívicas e a sociedade civil.
2. Descentralização efectiva: O modelo namibiano mostra que o controlo centralizado dos recursos exacerba o descontentamento periférico. O MPLA precisa transformar a autonomia municipal em realidade palpável, dando poder orçamental e decisório às cidades (Luanda, Huambo, Lobito) onde o descontentamento é maior. A bússola aponta que a gestão da miséria a partir de Luanda é uma fórmula para o desastre eleitoral.
3. Combate à corrupção como discurso de unidade: Enquanto a SWAPO foi acusada de proteger os “antigos”, o MPLA tem um trunfo potencial na política de recuperação de activos. Contudo, este discurso precisa de ser percebido como imparcial e não como uma arma de facções internas. Para recuperar a confiança urbana, a “bússola” indica que a luta contra a impunidade deve ser transversal e institucional, funcionando como o novo pacto de legitimidade pós-revolucionária.
Em conclusão, a SWAPO não é um espelho, mas uma bússola: mostra a direcção, mas não o terreno. O MPLA está avisado de que o declínio iniciado em 2012 pode culminar numa derrota histórica em 2027 se insistir na gestão inercial do poder. A Namíbia demonstra que o “partido da libertação” já não vence por inércia; ele vence se provar, a cada ciclo eleitoral, que é o melhor gestor da transição geracional, da justiça económica e da renovação política.
Se o MPLA souber ler os sinais de Windhoek, perceberá que a única maneira de manter o poder político em Angola não é cimentar o passado, mas antecipar o futuro, assumindo uma estratégia de humildade institucional e de resposta agressiva às crises urbanas. Caso contrário, o desfecho de 2027 poderá não ser apenas uma perda de popularidade, mas o fim de um ciclo histórico, repetindo o desgaste que já faz a SWAPO — outrora inexpugnável — suar para se manter à tona no vento que sufla o Povo do Sudoeste Africano.











