
Falta, no seio do MPLA, aquilo que em qualquer organização politicamente deveria ser uma regra de ouro: comunicação assertiva.
Após mais de meio século de governação contínua, desgastante e marcada por sucessivas fricções internas e externas, qualquer discurso oriundo das suas estruturas tende a adquirir vida própria, quase sempre no formato de controvérsia ruidosa com efeito de bumerangue.
Nas redes sociais, esse fenómeno manifesta-se em comentários mordazes que repetem, com ironia crescente, que “o MPLA está desesperado em mostrar que está”. Como prova disso, apontam para a estrutura monumental erguida em tempo recorde no coração da miséria que o próprio regime permitiu que se sedimentasse ao longo das décadas.
A nova sede partidária, de imponência faraónica, converteu-se numa metáfora pronta, grande, dispendiosa e desconectada do quotidiano do cidadão comum. Alguns internautas, mais atrevidos, arriscam profecias: “Esse edifício vai virar museu ou centro de pesquisa… e não vai demorar muito!” A ironia é ácida, mas o paralelismo histórico não é descabido, afinal, até as pirâmides erguidas pelos faraós, sustentadas por tributos e sacrifícios, repousam hoje como museus. A diferença, neste caso, é que o povo angolano não precisou de milénios para descodificar o enredo.
E é precisamente aqui que reside o ponto fulcral. Governar é a arte de estabelecer prioridades. Em contextos marcados por desafios múltiplos e recursos cronicamente escassos, distingue-se a liderança responsável pela capacidade de identificar o que realmente impulsiona o progresso colectivo. A prioridade certa se transforma, a errada limita-se a administrar a decadência.
O MPLA, enquanto força política que sustenta o Executivo, tem promovido obras e projectos, isso é inegável. No entanto, quando tais realizações surgem envoltas em opacidade na adjudicação, ausência de processos decisórios democráticos e uma comunicação que alimenta mais suspeitas do que confiança, tornam-se obras que caiem em saco-roto. É como preparar boa comida em panelas mal lavadas. Até pode ser saborosa, mas ninguém se arrisca a provar.
Não se pretende “bater no ceguinho” até porque o cego, neste caso, finge não o ser. A crescente desmotivação de muitos angolanos relativamente ao MPLA deriva de problemas estruturais e persistentes: pobreza, desigualdades gritantes, corrupção endémica, serviços públicos debilitados e expectativas defraudadas ao longo de gerações. A riqueza petrolífera contrasta cruelmente com as carências básicas de saúde, educação, saneamento e oportunidades de emprego. Daí nasce a desconfiança; daí germina a apatia política.
O diagnóstico é repetido até à exaustão: corrupção e falta de transparência, que corroem a confiança pública; serviços essenciais precários, que frustram e fragilizam o quotidiano; desemprego e ausência de perspectivas, que empurram jovens para o desencanto; promessas sucessivas não cumpridas, que já não inspiram fé nem paciência; exclusão social persistente, sobretudo em zonas rurais condenadas ao silêncio.
E o mais inquietante, a própria elite dirigente conhece este repertório na ponta da língua, mas insiste em fingir-se muda e surda perante ele.
A verdade é simples, o povo não precisa de manchetes entusiásticas nos telejornais. Precisa, sim, de uma comunicação assertiva que fortaleça relações mais saudáveis e produtivas, promova a autoconfiança colectiva, melhore a resolução de conflitos e ajude a construir um ambiente político mais respeitável, equilibrado e credível.
Comunicar assertivamente é expressar ideias de forma clara, directa e responsável. É defender posições sem agredir, ouvir sem desvalorizar, liderar sem esmagar. É reduzir a tensão, a desinformação e o desgaste emocional que há muito se tornaram rotina no espaço público angolano.
Em suma: sem comunicação assertiva, não há governação eficaz. Há somente ruído, improviso e pirâmides modernas erguidas sobre areia movediça. E, como a História ensina, até as mais majestosas estruturas acabam por se tornar museus, sobretudo quando o povo decide que o futuro merece um novo projecto.










