
Há ditados que nasceram sábios. Outros nasceram cansados. E há aqueles que, quando chegam a Angola, passam primeiro pelo Largo da Mutamba, apanham um táxi azul e branco, dão uma volta pelo São Paulo, param no antigo Roque Santeiro e saem de lá com outra personalidade.
É por isso que, se dependesse de nós, o velho ditado podia ganhar uma versão genuinamente mwangolé: “Gente coisa, é outra fina!”
Não me perguntem exactamente o que significa. Em Angola, às vezes, o importante não é entender o provérbio; é saber em que contexto usar, com quem falar e, sobretudo, quem está a ouvir!
Porque aqui, meu irmão, “coisa” pode ser pessoa, negócio, problema, oportunidade, maka, esquema ou simplesmente aquele assunto que ninguém quer explicar em público.
— Mano, afinal o que aconteceu?
— É coisa.
— Que coisa?
— Coisa de gente.
— Mas que gente?
— É outra fina!
E acabou a reunião.
A arte angolana de complicar o simples.
Nós, angolanos, temos um talento extraordinário: conseguimos transformar uma pergunta simples numa conferência internacional.
Enquanto a tia Joana Malungo pergunta:
— O comboio vai sair às oito?
O sobrinho Zeca Pacassa responde:
— Minha tia, isso depende.
— Depende de quê?
— Depende da situação.
— Que situação?
— A situação é que a situação está complicada.
Pronto!
Já ninguém sabe se estamos a falar do comboio, da economia, da política, do Benfica de Luanda ou da chuva que caiu no “Kilamba”. No fundo, “gente coisa, é outra fina”. No táxi é que a filosofia ganha doutoramento
Entrem num táxi na Maianga em direcção ao Talatona e escutem. O motorista é sociólogo. O passageiro do banco da frente é economista. O candongueiro é especialista em geopolítica. E a senhora atrás, que leva dois sacos do mercado, conhece melhor os ministros, os deputados e os jogadores da selecção do que qualquer jornal.
— Chefe, vira aqui.
— Não posso, mano. Tem polícia.
— Então vira depois.
— Depois também tem.
— Então segue.
— Mas ali tem trânsito.
Silêncio. Finalmente alguém conclui:
— Angola está mesmo complicada.
E todos respondem:
— “É coisa de gente, kota!”
No mercado, até a cebola tem currículo. No Mercado dos Congolenses, a coisa fica mais fina.
— Maezinha, quanto está o tomate?
— Duzentos.
— Duzentos o quê?
— Duzentos.
— Mas ontem era cem!
— Ontem era ontem, filho. Hoje é hoje.
Eis uma verdadeira aula de economia aplicada. O preço não sobe. Ele evolui! A cebola já não é simplesmente cebola. Tem inflação, transporte, combustível, dólar, chuva, seca, guerra na Ucrânia, preço do barril e, se insistirmos muito, até culpa do vizinho.
— Mãezinha, baixa só um bocadinho.
— Meu filho, queres comprar ou fazer política?
Fim das negociações.
“Gente coisa” também serve para amizades. Há amigos que são mesmo amigos. E há outros que aparecem quando compraste carro. Quando tens emprego. Quando abriste negócio. Quando recebeste salário. Quando regressaste da Europa. Quando publicaste fotografia no Facebook ao lado de alguém importante.
Aí começam:
— Meu kota!
— Meu irmão!
— Meu sangue!
— Desde puto que te admiro!
Tu olhas para a pessoa e pensas:
“Desde puto? Mas eu conheci-te ontem no Facebook!”
É aí que entra o provérbio: “Gente coisa, é outra fina!”
Porque há gente que não procura amizade. Procura Wi-Fi emocional, combustível financeiro e carregamento de saldo afectivo.
Na política, então… Aqui o ditado podia ser elevado a decreto presidencial. Porque em Angola temos uma coisa curiosa: “a mesma pessoa pode ser herói na segunda-feira, incompetente na terça, visionário na quarta, traidor na quinta e novamente herói no sábado”. Tudo depende de quem está a pagar o almoço!
No Kinaxixi, dois kambas discutem política:
— Este homem é muito bom!
— Bom aonde?
— No desenvolvimento.
— Qual desenvolvimento?
— Desenvolvimento em geral.
— Então explica!
— Não tenho tempo.
E vão embora. “Gente coisa, é outra fina”. Porque política angolana, às vezes, parece funje sem pirão: todo mundo fala que está bom, mas ninguém consegue explicar exactamente o acompanhamento.
No WhatsApp, a coisa fica mais fina ainda. Tem aquele grupo da família. Outro da igreja. Outro dos antigos colegas. Outro dos amigos da infância. Outro dos primos. Outro dos “empreendedores”. Outro chamado “Só os Verdadeiros”,onde estão exactamente 187 pessoas!
De repente:
“Bom dia, família! Quem tiver 50.000 Kz pode emprestar-me até sexta-feira?”
Silêncio. Nem os administradores respondem. Mas cinco minutos depois:
“Amados irmãos, vamos continuar firmes na oração”. Amém! Porque dinheiro é uma coisa delicada.
“Gente coisa, é outra fina”.
Até o “estou a caminho” merece investigação científica.
Em Angola, quando alguém diz:
— Estou a caminho.
Não significa necessariamente que saiu de casa.
Pode significar: Ainda está a tomar banho. Está a procurar a camisa. Está no Cazenga. Está no Talatona. Está a dormir. Está a pensar se vai mesmo. Está a caminho… espiritualmente.
E se perguntares:
— Onde estás?
Resposta:
— Já estou quase aí.
“Quase aí” é uma coordenada geográfica exclusivamente angolana. Não aparece no Google Maps.
Mas há uma coisa que não podemos perder. Por trás de toda esta sátira existe uma verdade simples: “gente é coisa séria”.
Podemos rir dos nossos defeitos, dos nossos “esquemas”, da nossa mania de dizer “já vou” quando ainda estamos de chinelo, das nossas discussões no táxi, das guerras no WhatsApp e das filosofias do mercado. Mas Angola é feita de gente. Gente que acorda cedo. Gente que vende pão. Gente que conduz táxi. Gente que ensina. Gente que cura. Gente que planta. Gente que constrói. Gente que emigra e sente saudades. Gente que fica e luta. Gente que erra. Gente que recomeça. Gente que, apesar das makas, ainda consegue rir. E talvez seja justamente aí que esteja a nossa maior riqueza.
Porque “coisa nenhuma é mais fina do que gente com humanidade”.
Por isso, neste sábado, quando encontrares aquele amigo que te deve dinheiro há três anos, não lhe batas.
Pergunta simplesmente:
— Meu irmão, quando vais pagar?
Se ele responder:
— Kota, isso é uma coisa…
Tu já sabes. Respira fundo. Olha para o Largo da Independência.
E responde:
— Eu sei. Em Angola, gente coisa… é outra fina!
Bom sábado, meus mwangolês!
E lembrem-se: “não confundam esperteza com inteligência, aparência com carácter, dinheiro com riqueza e “estou a caminho” com localização GPS”.
Porque, neste País de semba, funje, candongueiro, maka e muita criatividade…
“GENTE COISA, É OUTRA FINA!”
*Menga-Ma-Kimfumu











