O VERDADEIRO PROGRESSO NÃO É MEDIDO PELO TOPO, MAS PELA BASE

RECADOS DA CESALTINA ABREU (39)

“A Humanidade, como um exército em campo, avança à velocidade do mais lento”

Gabriel García Márquez

Esta frase de Gabriel García Márquez [1927 – 2014], o Gabo, escritor e jornalista colombiano, activista político, militante de causas sociais e humanista engajado, conhecido como ‘o autor das fantasias reais’ — “A Humanidade, como um exército em campo, avança à velocidade do mais lento”, no livro O Amor nos Tempos de Cólera, 1985 — é de uma actualidade desconcertante.

Num exército, não se pode deixar ninguém para trás. O ritmo não é dado pelo mais forte, nem pelo mais rápido, mas pelo mais vulnerável. Se um soldado fica, o grupo abranda — ou fracassa. Aplicado ao mundo de hoje, o sentido é claro: o verdadeiro progresso não é medido pelo topo, mas pela base.

Vivemos numa era de avanços tecnológicos impressionantes — inteligência artificial, viagens espaciais, medicina robótica — e, ao mesmo tempo, convivemos com fome, guerras, desigualdades gritantes e exclusão social e, também, digital. Há países que discutem colonizar Marte enquanto outros lutam por água potável. Há sociedades hiperconectadas enquanto milhões permanecem fora da rede.

A frase lembra-nos que:

• Nenhuma economia é realmente forte se parte significativa da população vive na miséria;

• Nenhuma democracia é sólida se uma parte dos cidadãos não tem voz;

• Nenhum mundo é seguro enquanto houver ‘bolsas’ de desespero.

Basta olhar para as crises globais recentes: pandemias, migrações, alterações climáticas, e guerras (civis, invasões). Elas demonstram que fronteiras não seguram fragilidades. A vulnerabilidade de uns torna-se rapidamente problema de todos. O planeta avança — ou trava — como conjunto.

Num contexto como o africano, e particularmente o angolano, essa reflexão ganha ainda mais peso. ‘Desenvolvimento’ não se limita ao crescimento do PIB, e vivemos essa experiência quando da ‘mini-era’ de ouro da economia angolana (http://www.ceic-ucan.org/?page_id=91): após o fim da guerra civil a taxa de crescimento do PIB entre 2002 e 2015 foi de 9,93% em média, atingindo 23,20% em 2007. Contudo, nesse mesmo período, o IDH variou, apenas, de 0,384 para 0,526, mantendo Angola na 149.ª posição do ranking mundial. Para além da necessidade de se consensualizar, democrática e inclusivamente esse conceito, ou seja, construir entendimentos e projecções sobre o que significa ‘desenvolvimento’ e quais os resultados esperados para todos, a história demonstra que a melhoria das condições de vida e o progresso social aconteceram lá onde houve investimento sério e consistente, através de políticas de facto públicas, em educação, saúde, justiça, e as oportunidades chegaram aos últimos da fila. Se o “mais lento” permanece excluído, o país inteiro caminha devagar.

No fundo, Márquez aponta para uma ética da responsabilidade colectiva. O progresso real não é competir para chegar primeiro, mas criar condições para que ninguém fique para trás. Então, talvez a pergunta implícita nesta frase seja: queremos ser os mais rápidos, ou queremos chegar todos?

Uma 5.ª feira com melhores notícias. Os habituais votos de saúde, cuidados e coragem para contribuir para que ninguém fique para trás… 

Kandando daqui!

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