
RECADOS DA CESALTINA ABREU (38)
Repetimos erros porque ainda não aprendemos a reflectir sobre quem somos e como queremos viver juntos. Evoluiremos quando respeito, dignidade e igualdade (no sentido de equidade) deixarem de ser discursos e se tornarem prática.
O panfleto A Corja, de 1924, traduzia a indignação de cidadãos que então, já declaravam não acreditar na justiça nem nos políticos. Apontavam como exemplos a prescrição de crimes hediondos, a ausência de legislação eficaz contra o enriquecimento ilícito e a contaminação da justiça por relações pessoais entre magistrados. Mais de um século depois, continuamos a conviver, de forma generalizada, com situações semelhantes. Por que não aprendemos com a História?
Não defendo que a História se repete. Os contextos mudam, as pessoas mudam, as relações de poder transformam-se. Mesmo quando certos factos parecem reaparecer, nunca ocorrem da mesma forma. Quando Karl Marx escreveu que “a história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, em O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, já sugeria que essa repetição era distinta, mas alertava para a necessidade de conhecer o passado para evitar a reprodução de erros. Na mesma linha, Géraldine Schwarz, autora de Os Amnésicos, recorda que a História pode não se repetir, mas os métodos de manipulação repetem-se — sobretudo quando falha o trabalho de memória.
A História ajuda-nos a compreender a origem de problemas como desigualdade, corrupção, impunidade, autoritarismo, racismo ou misoginia. Conhecer as suas causas permitiria preveni-los ou combatê-los com maior lucidez. Então por que persistimos nos mesmos erros? Não pretendo oferecer respostas ‘acabadas’, mas algumas razões parecem evidentes:
• Apesar da abundância de informação, há resistência à leitura e ao aprofundamento crítico;
• Entre uma educação emancipadora e uma educação-doutrinação, que ensina a obedecer, muitos sistemas tendem à segunda. Paulo Freire lembrava que a educação transforma as pessoas, e as pessoas transformam o mundo;
• A História é frequentemente reduzida a datas e nomes, esquecendo-se a análise crítica;
• A narrativa histórica tende a reflectir a versão dos vencedores. Como diz o provérbio africano, ‘enquanto o leão não contar a sua versão, a história continuará a ser contada pelo caçador’. Sem pensamento crítico, aceitamos versões únicas como verdades absolutas;
• Multiplicam-se posturas de “verdade revelada” e de merecimento, usadas para justificar poder, apropriação de recursos e dominação.
Parte-se, muitas vezes, de premissas frágeis: que o conhecimento histórico é amplamente difundido, que conhecimento equivale à aprendizagem, e que os erros decorrem apenas da ignorância. No entanto, as guerras actuais não resultam de desconhecimento, mas de interesses organizados, ambição e disputa de poder. O conhecimento histórico é limitado e raramente orienta decisões políticas. As guerras não são declaradas por historiadores, com a excepção de Winston Churchill, cuja formação em História influenciou a sua leitura do expansionismo alemão.
Além disso, a história humana é complexa e conhecemos apenas fragmentos dela. Nem todos os erros nascem da ignorância; muitos resultam de escolhas deliberadas cujas consequências escapam ao controlo. No fundo, a História é também a luta do ser humano consigo próprio, uma luta que inevitavelmente atinge o outro, porque vivemos em sociedade. Repetimos erros porque ainda não aprendemos a reflectir sobre quem somos e como queremos viver juntos. Evoluiremos quando respeito, dignidade e igualdade (no sentido de equidade) deixarem de ser discursos e tornarem-se prática.
Partilho esta reflexão para provocar. Apesar da sua juventude e dos seus vastos recursos naturais, África continua na cauda dos principais indicadores globais. No entanto, foi berço da Humanidade e possui patrimónios filosóficos capazes de inspirar novos caminhos. Entre eles, o Ubuntu propõe uma política participativa orientada para o bem público, uma economia solidária baseada na cooperação, e uma sociedade inclusiva guiada pelo bem-comum. Talvez aprender com a História signifique, também, ter coragem de reinventar o presente nos nossos próprios termos.
Saúde, cuidados e coragem para transformar o presente com vista a um novo futuro, onde o sentido de Humanidade partilhada seja princípio organizador das relações sociais e de poder!
Kandando daqui!











