A PRESIDÊNCIA ROTATIVA DA UNIÃO AFRICANA POR ANGOLA: A HORA DO BALANÇO

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

Revela uma presidência que reflectiu o próprio percurso recente de Angola: menos retórica, mais pragmatismo; menos confrontação, mais mediação. Num continente em busca de referências estáveis, esse pode ser, afinal, um legado mais relevante do que aparenta à primeira vista.

O 14 de Fevereiro, é celebrado como o “Dia dos Namorados”. Todavia o do ano de 2026 serve, para fazer o balanço do namoro entre a República de Angola e a União Africana, faltando algumas horitas, para o término do seu mandato à testa desta instituição continental. 

A assunção da presidência rotativa da União Africana por Angola constituiu, desde o primeiro momento, mais do que um simples exercício protocolar. Representou um teste de maturidade diplomática, de responsabilidade continental e de projecção estratégica de um país que, nas últimas décadas, passou de teatro de conflitos a actor relevante na arquitetura da paz africana.

Num continente marcado por instabilidades persistentes — do Sahel ao Corno de África, passando pelos Grandes Lagos — a liderança angolana encontrou uma União Africana confrontada com desafios estruturais: conflitos armados prolongados, golpes de Estado recorrentes, crises humanitárias, endividamento crescente e uma pressão externa cada vez mais complexa num mundo multipolar. Governar esta agenda exigia sobriedade, escuta e capacidade de mediação, mais do que gestos espectaculares.

Angola procurou afirmar-se sobretudo como voz de equilíbrio. A diplomacia presidencial apostou no diálogo político como instrumento prioritário, recuperando a tradição angolana de mediação discreta, mas persistente. O envolvimento nos “dossiês” da República Democrática do Congo-RDC, do Sudão e da região dos Grandes Lagos confirmou uma linha de actuação baseada na prevenção da escalada dos conflitos e na valorização das soluções africanas para os problemas africanos, um princípio fundador da própria União Africana.

No plano institucional, a presidência angolana decorreu num contexto de limitações bem conhecidas da organização continental: financiamento insuficiente, dependência de parceiros externos e dificuldades na implementação efectiva das decisões tomadas. Ainda assim, o discurso angolano manteve-se coerente na defesa do reforço da autonomia estratégica da União Africana, sublinhando a necessidade de maior contribuição dos Estados-membros e de reformas graduais, mas realistas, da governação continental.

Importa reconhecer que faltando apenas algumas horas, para o seu término, esta presidência não foi isenta de críticas. Alguns observadores esperavam uma postura mais assertiva em relação às rupturas constitucionais ou uma visibilidade internacional mais marcante. No entanto, a opção angolana pareceu deliberadamente cautelosa: privilegiar a estabilidade, evitar polarizações e preservar canais de diálogo mesmo nos contextos mais sensíveis. Num continente onde decisões precipitadas, frequentemente, agravam crises, essa prudência pode ser lida não como fraqueza, mas como método.

No balanço final, a presidência rotativa angolana não ficará na história por grandes viragens institucionais, mas pela consistência do seu posicionamento diplomático. Angola apresentou-se como um país consciente dos limites do cargo, mas também das suas responsabilidades, evitando promessas irrealistas e apostando numa liderança serena, focada na paz, na cooperação regional e na credibilidade da União Africana no concerto das nações.

A hora do balanço revela, assim, uma presidência que reflectiu o próprio percurso recente de Angola: menos retórica, mais pragmatismo; menos confrontação, mais mediação. Num continente em busca de referências estáveis, esse pode ser, afinal, um legado mais relevante do que aparenta à primeira vista. 

A presidência rotativa angolana não resolveu os desafios profundos da União Africana, tarefa que excede qualquer mandato anual, mas ofereceu um retrato lúcido das potencialidades e fragilidades da organização. O seu principal legado reside, talvez, nessa constatação essencial: sem vontade política colectiva, autonomia financeira real e mecanismos eficazes de implementação, a liderança continental continuará limitada, independentemente de quem esteja à frente da União Africana.

Desejo-vos um bom final de semana prolongado com um bom almoço na medida do possível. E, se for o funje, melhor ainda. 

Bem-haja! 

*Menga-Ma-Kimfumu

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