O CAPITALISMO DE DESASTRE

Da destruição da mente à pilhagem do Mundo

 JOAQUIM SEQUEIRA

Um ensaio sobre a tese de Naomi Klein, percorrendo as raízes obscuras do neoliberalismo e o seu rasto de choque e espólio pelo globo

O século XX não terminou com um colapso, mas com um silêncio ensurdecedor: o ruído branco do esquecimento forçado, do trauma apagado, da memória apagada para dar lugar a uma nova realidade económica. Este é o ponto zero da narrativa de Naomi Klein no livro “A Doutrina do Choque: a Ascensão do Capitalismo de Desastre”. E começa, não numa sala da Bolsa, mas numa câmara de isolamento sensorial, nas mãos de um homem chamado Ewen Cameron.

I. A sementeira do silêncio:

O laboratório da mente

Nos anos 50, o psiquiatra Ewen Cameron, financiado clandestinamente pela CIA no projecto MKUltra, conduziu experiências brutais de “despadronização” da mente humana. Através de electrochoques, privação sensorial e overdose de drogas psico-activas, tentou apagar memórias e personalidades para, em teoria, reprogramá-las. O seu objectivo era criar uma tábua rasa, um paciente vulnerável e maleável, pronto para receber uma nova identidade implantada.

Esta procura pela “tábua rasa” não é uma mera curiosidade sombria da história da psiquiatria. É a metáfora perfeita e literal para o projecto que se seguiria. Cameron estava a tentar, num indivíduo, o que uma escola de pensamento económico, a partir da mesma época, ambicionaria para sociedades inteiras: aproveitar um estado de choque e desorientação profunda para implantar um novo programa, não de identidade pessoal, mas de ordem económica radical.

II. A Universidade de Chicago e o evangelho do choque

Enquanto Cameron trabalhava nos seus laboratórios, a poucos quilómetros dali, na Universidade de Chicago, um evangelho económico diferente ganhava forma sob a égide de Milton Friedman. Friedman e os seus colegas da chamada Escola de Chicago defendiam uma visão fundamentalista do capitalismo: um sistema de “mercados livres e associações voluntárias”, purgado de regulações estatais, barreiras comerciais e interesses enraizados. Para eles, o estado era uma intrusão na liberdade individual e económica, e a sua missão era reduzi-lo ao mínimo.

A génese do neoliberalismo não foi um acto de criação pura, mas uma contra-revolução intelectual. Posicionou-se contra o consenso keynesiano do pós-guerra, que defendia um papel activo do Estado na economia. Esta nova doutrina, porém, tinha um problema: as suas políticas de privatizações em massa, cortes brutais nos serviços públicos e desregulação total eram profundamente impopulares. Nenhuma sociedade saudável as escolheria “democraticamente”. A pergunta que Friedman colocou foi, então, sinistramente pragmática: como implementar o “inimaginável”?

A sua resposta foi o choque.

III. A Receita do desastre:

Esperar pelo terramoto

Friedman teorizou que apenas uma crise – real ou percepcionada – produz mudança real. Quando ocorre, as acções tomadas dependem das ideias que estão por aí. Em linguagem clara: um desastre abre uma janela. Num estado de trauma colectivo – seja um golpe de Estado, um ataque terrorista, um furacão ou uma crise financeira – a população, atordoada e desejosa de uma salvação rápida, aceita medidas que em circunstâncias normais rejeitaria. É o momento perfeito para vender a cura neoliberal: privatizar tudo, despedir funcionários públicos, cortar subsídios, desregular. A “terapia de choque” económica impõe-se enquanto as pessoas ainda estão a tremer.

A aplicação do desastre pelo mundo fora, como um vírus em replicação global, seguiu um padrão assustadoramente repetido:

  • O Laboratório do Golpe (Chile, 1973): após o sangrento golpe de Pinochet, que mergulhou o país no terror, jovens economistas formados em Chicago (os “Chicago Boys”) foram levados para implementar o primeiro grande ensaio da doutrina de choque. A ditadura proporcionou o “silêncio” político necessário.
  • A Exploração da catástrofe natural (Sri Lanka, 2004; Nova Orleães, 2005): após o tsunami, terras costeiras de pescadores foram rapidamente convertidas em resorts turísticos; após o furacão Katrina, em Nova Orleães, o sistema de escolas públicas foi quase totalmente substituído por escolas charter privadas, num processo descrito como a limpeza de uma “tábua rasa”.
  • O aproveitamento do colapso (Rússia pós-1991; Argentina, 2024): na Rússia dos anos 90, a confusão da queda da URSS permitiu que oligarcas pilhassem os activos do Estado. Hoje, na Argentina do presidente Javier Milei, vê-se uma aplicação textual e contemporânea do manual. Sob o pretexto de combater a inflação com “terapia de choque”, o governo implementou uma austeridade de “golpe de motosserra”. Cortou 80% no orçamento de combate a incêndios florestais (agora em chamas na Patagónia), demitiu funcionários públicos e congelou salários, enquanto a pobreza dispara e a indústria nacional entra em “grande depressão”.

IV. Resistência

Quando o choque não pegou

Mas a história de Klein não é apenas de dominação. É também de resiliência e contra-choque. O livro documenta casos em que as sociedades, após o impacto inicial, reorganizaram-se e rejeitaram a pilhagem. Em Chicago, o próprio berço ideológico da Escola, os professores do sindicato (CTU) leram “A Doutrina do Choque” e reconheceram nela a estratégia usada para fechar escolas públicas e impor reformas neoliberais. Inspirados por essa análise, travaram greves históricas em 2012, “uma greve contra a agenda neoliberal de reforma corporativa da educação”. A sua luta ajudou a eleger uma nova administração municipal que promete virar a página das políticas de choque.

V. O choque é um projecto, não um destino

“A Doutrina do Choque” é mais do que um livro de economia política; é um tratado sobre a memória e o poder. Mostra-nos que o projecto neoliberal não triunfa apenas com gráficos e teorias, mas com técnicas de guerra psicológica aplicadas a populações inteiras. Recorre ao mesmo princípio de Ewen Cameron: primeiro, o choque que desorienta e paralisa. Depois, o rápido preenchimento do vazio com um novo programa.

Compreender este padrão é a primeira defesa contra ele. Se o capitalismo de desastre prospera na amnésia colectiva, a sua antítese reside na memória, na organização comunitária e na recusa em aceitar a crise como uma oportunidade para o espólio. Como Klein demonstra, quando as pessoas conseguem respirar após o impacto inicial, recuperar a sua narrativa e reconhecer a pilhagem que se tenta fazer sob o disfarce de ajuda, o choque pode falhar. A história da nossa época está a ser escrita nesta batalha entre quem explora o desastre e quem se recusa a ser apagado por ele.

E tu, que achas desta ideia de que as crises são exploradas para impor mudanças radicais? Vês exemplos deste “capitalismo de desastre” em acção no mundo à tua volta?

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