A UNITA entre a história que a funda e o futuro que deve construir

A alternância não será alcançada pela nostalgia, pela reacção simbólica ou pela fragmentação do campo oposicionista, mas sim pela construção paciente, estratégica e inclusiva de uma maioria política organizada, com projecto, com alianças e com clareza sobre o dia seguinte à vitória.
O debate político angolano entrou numa nova fase. Não apenas porque se aproximam as eleições de 2027, mas porque se acumulam sinais claros de desgaste do modelo de governação vigente e, simultaneamente, de bloqueio estrutural à alternância. Neste contexto, a UNITA encontra-se num ponto decisivo da sua história: é hoje a principal força de oposição, detentora de uma maioria social potencial, mas ainda confrontada com severas limitações institucionais à transição democrática.
As recentes declarações do presidente da UNITA apelando à formação de uma frente ampla de oposição, bem como episódios ocorridos na Assembleia Nacional e nas redes sociais, revelam a existência de um debate latente sobre identidade, memória, estratégia e futuro. Com este texto hei de propor uma leitura integrada desses fenómenos e apontar caminhos possíveis para uma mobilização política eficaz, responsável e orientada para a alternância.
1 – A frente ampla: necessidade política, desafio constitucional
O apelo à formação de uma frente ampla não é apenas desejável, é estruturalmente necessário. Num sistema político marcado pela fragmentação induzida da oposição, pela legalização selectiva de partidos e pelo controlo assimétrico dos recursos do Estado, nenhuma força isolada reúne, por si só, condições suficientes para impor uma transição.
A Constituição angolana impõe limites formais à coligação eleitoral, mas não impede a convergência política, programática e estratégica. Uma frente ampla não precisa nascer como coligação jurídica; pode existir como:
– plataforma mínima comum;
– compromisso público de não agressão eleitoral;
– coordenação de fiscalização e defesa do voto;
– entendimento político sobre cenários pós-eleitorais.
A ausência de arquitetura explícita não invalida o apelo; antes revela que o essencial está por construir. A UNITA, enquanto maior força da oposição, tem a responsabilidade de liderar esse processo com abertura, humildade estratégica e clareza de objectivos.
2- Memória, Jamba e a armadilha da narrativa reactiva
O episódio ocorrido na Assembleia Nacional, quando um deputado do MPLA afirmou que “isto aqui não é Jamba”, não foi um deslize retórico. Foi um acto político consciente, destinado a empurrar a UNITA para um terreno simbólico que favorece o regime: o da guerra, da divisão e do passado armado.
A resposta vigorosa do deputado da UNITA, bem como a subsequente mobilização nas redes sociais em defesa da Jamba e do seu legado histórico, são compreensíveis do ponto de vista emocional e identitário. A Jamba foi, para muitos angolanos, um espaço de organização política, social e administrativa em condições extremas, e teve um papel incontornável no desfecho do conflito.
No entanto, há um risco estratégico evidente: quando a UNITA aceita discutir o presente a partir da geografia simbólica da guerra, desloca o eixo do debate do futuro para o passado, precisamente onde o MPLA se sente mais confortável.
A memória não deve ser negada. Mas não pode ser o centro da narrativa política actual.
3 – Combatentes, legitimidade histórica e o desafio da transição geracional
O enaltecimento de combatentes vivos e em memória, bem como das trajectórias da luta armada e da resistência política, faz parte da identidade histórica da UNITA e da própria história de Angola. Ignorar isso seria amputar a verdade.
Contudo, numa sociedade maioritariamente jovem, urbana e sem vivência directa da guerra, essa linguagem já não mobiliza a maioria social decisiva. Pior: pode cristalizar a percepção, explorada pelo regime, de que a UNITA permanece ancorada num ciclo histórico encerrado.
A legitimidade da UNITA em 2027 não pode assentar apenas no que fez durante a guerra, mas no que propõe para governar em paz:
– emprego;
– custo de vida;
– serviços públicos;
– justiça social;
– futuro económico.
A transição política exige também uma transição simbólica.
4 – Do partido da resistência ao partido da transição
A UNITA venceu uma batalha histórica: deixou de ser marginal, regional ou residual. Tornou-se o principal polo de agregação do descontentamento nacional. O desafio agora é outro: converter resistência em arquitectura de poder democrático.
Isso implica:
– deslocar o discurso do passado para o futuro;
– substituir a lógica de reacção pela lógica de proposição;
– falar menos de “onde estivemos” e mais de “como governaremos”.
A criação recente de um governo-sombra e a internacionalização da liderança apontam nessa direcção. Mas essa transformação precisa reflectir-se também:
– na linguagem;
– nos símbolos;
– nos rostos;
– nas prioridades comunicacionais.
5 – Mobilizar para alternar: os eixos centrais
Para que a mobilização da UNITA contribua efectivamente para a alternância, ela deve organizar-se em torno de cinco eixos fundamentais:
1 – Futuro como centro da narrativa;
Menos guerra, mais políticas públicas. Menos memória, mais projecto.
2 – Unidade como método, não como slogan;
A frente ampla deve ser construída com pragmatismo, não com hegemonismo.
3 – Instituições como campo de disputa, não como ilusão;
Preparação antecipada para defesa do voto e gestão do pós-eleitoral.
4 – Juventude como sujeito político, não apenas como eleitorado;
Organização permanente, formação e responsabilização.
5 – Confiança sistémica sem capitulação;
Garantias de estabilidade sem abdicar da mudança.
Conclusão
A UNITA não precisa provar que faz parte da história de Angola, isso é indiscutível. Precisa provar que é capaz de liderar o futuro do país.
A alternância não será alcançada pela nostalgia, pela reacção simbólica ou pela fragmentação do campo oposicionista. Será alcançada pela construção paciente, estratégica e inclusiva de uma maioria política organizada, com projecto, com alianças e com clareza sobre o dia seguinte à vitória.
A questão já não é se Angola precisa de mudança.
A questão é se a UNITA conseguirá ser a ponte entre o descontentamento social e a transição democrática.











