4 DE FEVEREIRO. O COLONIALISMO FOI VENCIDO… E A ‘ANGOLA RENOVADA’?

RECADOS DA CESALTINA ABREU (17)

O Índice Global da Fome 2025 coloca Angola entre os 13 piores países do mundo, e o pior da lusofonia. O país caiu para a 111.ª posição entre 123 avaliados, com um nível de fome classificado como “sério”.

Ontem, 4 de Fevereiro, evocaram-se em Angola os “heróis que quebraram as algemas do colonialismo para criar uma Angola renovada”. O colonialismo foi, de facto, vencido. Mas a ‘Angola renovada’ ficou onde? No hino, talvez — tal como o poder popular.

Sem recorrer à longa lista de indicadores que evidenciam a enorme distância entre a aspiração e a realidade, basta um para traçar o quadro do fracasso colectivo: a fome. Negada ou relativizada no discurso oficial, a fome é hoje um dos sinais mais visíveis, mais disseminados e mais cruéis do nosso desconseguir enquanto Nação — porque nem isso plenamente conseguimos construir; ficámo-nos pelo País .

Os dados são inequívocos. O Índice Global da Fome 2025 coloca Angola entre os 13 piores países do mundo, e o pior da lusofonia. O país caiu para a 111.ª posição entre 123 avaliados, com um nível de fome classificado como “sério”. Quase metade das crianças menores de cinco anos sofre atraso no crescimento e mais de 22% da população vive em subnutrição crónica. Este é o futuro que está a ser criado.

Só os que olham e não veem continuam a afirmar que estamos no “caminho certo”. Talvez — mas para o fundo do poço, detalhe que convenientemente omitem.

Segundo o UNICEF, milhares de crianças morrem diariamente no mundo por causas associadas à fome. Em Angola, cerca de 70 em cada mil crianças não chegam aos cinco anos. A “vacina” existe e chama-se comida. Este já foi um país exportador de alimentos, com condições naturais e conhecimento humano para produzir. Porque razão, mais de 50 anos após a independência, milhões de angolanos continuam privados do mais básico direito à vida?

A desnutrição infantil é uma crise grave de saúde pública. Afecta o desenvolvimento físico e cognitivo de mais de dois milhões de crianças, com impactos severos no capital humano, no crescimento económico e na redução da pobreza. O sul do país e as periferias urbanas concentram as situações mais dramáticas, mas o problema é nacional.

A fome não é um problema estatístico ou técnico; é uma falha ética e política. Como lembrava Mandela, há quem acorde sem saber de onde virá a próxima refeição, e crianças que choram com fome. Saramago foi ainda mais contundente: obscena não é a pornografia, obscena é a fome.

Se a independência prometeu uma sociedade nova, justa e em paz, essa promessa exige hoje coragem política, solidariedade real e políticas ‘públicas’ transformadoras. Sistemas alimentares sustentáveis, escolhas que coloquem a vida no centro e decisões assumidas com — e não apesar de — quem vive as consequências.

O colonialismo foi vencido. A fome, não .

E sem vencer a fome, não haverá ‘Angola renovada’.

Saúde, cuidados e coragem para seguir, nas várias frentes de luta para construir a prometida Sociedade Nova, em Paz, Justa, de/para/e com todos! 

Kandando daqui!

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