O ASSASSINATO DAS VELAS ORNAMENTAIS DA FAVEL

ZOOM DA TUNDAVALA

POR AIRES ALMEIDA

Quem vive, ou viveu no Lubango, certamente tem na memória que a cidade era conhecida, até ao início dos anos 90, por alguns produtos que aqui eram produzidos. E, de repentemente, avivam-se as memórias e voltam as lembranças de como tinham fama alguns desses produtos/artigos, de entre os quais, as velas ornamentais, que eram produzidas pela FAVEL, que foram, sem dúvida, uma das marcas da cidade e da província. 

Quem não desejava receber de oferta uma vela ornamental daquelas? E como ficava bem oferecê-las? Eram bonitas, vistosas, coloridas e bem acabadas. Quem não gostava de ver uma vela acesa, e apreciar a figura exterior iluminada pela chama interior? Lembranças que muitos se lembram. Memórias que hoje se contam, para dizer aos mais novos que, mesmo no tempo em que a guerra civil estava quente, o Lubango sempre teve algo para oferecer aos seus visitantes. No caso, as velas da FAVEL. 

Lembrar as velas, é trazer à tona o processo de Redimensionamento Empresarial, iniciado em 1991 com a nossa Perestroika, que foi consequência das transformações políticas e económicas que o país teve de fazer para não perder o comboio das mudanças pelo mundo. Tinham começado com a Perestroika, a verdadeira, da qual resultou o desmoronamento da União Soviética, a queda do Muro de Berlim e a consequente unificação da Alemanha, e por aí adiante. História.

A nossa Perestroika, não só trouxe mudanças ao nível económico, por se ter adoptado a economia de mercado, acabando a socialista centralizada, como também arrastou o país para o multipartidarismo. Havia acabado o regime de partido único.

Nesse processo de mudanças e transformações, o Redimensionamento Empresarial teve como objectivo central a libertação do Estado das suas funções de dono de tudo já que, da pequena geladaria, ou da retrosaria de vão de escada, à maior fábrica, tudo era dele. Salvo algumas excepções, porque ainda existia alguma actividade privada que o Estado desconseguiu acabar com ela. Foi o processo pelo qual se iniciou a tal passagem para a economia de mercado.

Redimensionar significou, desde logo, entregar, distribuir, passar para as mãos de uma classe empresarial que mal sabia o que era ser empresário, lojas, lojecas, fábricas e fabriquetas. Foi a altura de acomodar interesses, distribuir entre os que mereciam, os escolhidos, ou predestinados, ainda que tivessem sido maus gestores enquanto haviam sido empregados do Estado. Foi o tempo do surgimento de um novo empresariado, em que até psicólogos viraram criadores de porcos, donos de pocilgas criadas com dinheiros de Caixas e outros fundos e financiamentos que, se calhar, nunca foram pagos. Apenas serviram para a compra de carros de luxo, à altura do estatuto de cada um, e para passeios turísticos ao estrangeiro geralmente bem acompanhados por “figuras femininas do protocolo”.

E, assim, tudo ou quase tudo deixou de ser do Estado, salvo nas situações em que, por razões estratégicas, o Estado preferiu/decidiu manter o controle desses negócios por via de participações de capital. Redefiniram-se as áreas de exclusividade do Estado, e as coisas foram-se refinando, até ao ponto em que estamos com ele, depois de um tal capitalismo primitivo ter possibilitado que o cabrito comesse onde estava amarrado.

Aqui entram as velas…

E entram as velas, porque o Redimensionamento Empresarial, apesar de, reconhecidamente, ter sido necessário, de terem sido criados critérios técnico-económicos de avaliação do património do qual o Estado se queria libertar, não ter sido um processo totalmente transparente. E hoje, ainda se levantam questões e dúvidas, porque muitos dos escolhidosfilhos ou afilhados, alguns servindo apenas de capapontas de lança de outros interesses, apenas ficaram, receberam das mãos do dono, unidades industriais ou comerciais que, mais tarde, viriam a ser convertidas em armazéns, vendidas a outros. Sabe-se lá o que mais terá acontecido. 

Nessa altura ouvia-se mesmo dizer: fulano ainda não foi contemplado. Era preciso não deixar de fora os mais fiéis

Certo mesmo é que a FAVEL, também redimensionada, melhor dizendo, passada para fora da esfera do Estado, nunca mais produziu velas ornamentais. Hoje, nem o Reino de Deus a salva. E, lá, onde estiver o senhor Gonçalves, então Director da FAVEL (quem não se lembra dele?), por muitas velas que se acendam em sua memória, não terá o merecido descanso, de tanto pensar nas velas que nunca mais serão produzidas. Na FAVEL.

Quantas FAVEL estão nesta situação por este país fora? 

Certo mesmo é que o Estado dirá, hoje, que não tem nada a ver com isso porque as FAVEL foram redimensionadas, vendidas, trocadas, cedidas, dadas, não importa. Hoje têm outro dono, ainda que não seja o inicial, o anteriormente escolhido. O processo ocorreu há mais de trinta anos, e cabe ao empresariado dar solução/melhor destino, a todas elas. Sacode-se a água do capote e pronto.

Será que o ónus desse redimensionamento deve ser carregado apenas pelo empresariado, ou o Estado tem também a sua quota-parte de responsabilidade? É só perguntar por perguntar…

Devido às velas… das muitas que há por aí, à espera que alguém as acenda!

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