Prós e contras do amor aos 70

Por um setentão apaixonado pela vida

DE ALBÉRICO LUPITO

Entre recomeços e… os finalmentes

Iniciar uma relação amorosa a partir dos 70 anos é como acender uma vela num fim de tarde: a luz já não é urgente, mas é doce, serena, e tem o dom de iluminar sombras antigas. É um amor mais calmo, pode ser mais sincero, porque já não é necessário provar-se. Mas também traz os seus desafios, como tudo o que floresce depois da tempestade.

Prós

1. Amor sem pressa

Depois dos 70, o coração já não corre, caminha. E nesse ritmo mais lento, cada gesto tem mais sentido, cada toque é presença inteira. Já não se ama para construir um império, ama-se para partilhar a varanda, o chá, o silêncio.

2. Liberdade emocional

Já não há a ânsia da conquista ou o medo de ficar só. Há espaço para ser quem se é, sem máscaras. A idade traz a coragem de mostrar as cicatrizes sem vergonha.

3. Companhia contra o vazio

O amor tardio pode ser o antídoto contra a solidão que, às vezes, assombra os dias mais longos. Ter com quem partilhar memórias, contar histórias antigas, rir do que passou. Isso aquece mais do que qualquer cobertor.

4. Uma nova juventude emocional

Há algo milagroso em apaixonar-se com cabelos brancos: o corpo talvez se curve, mas o espírito dança como se tivesse 20 anos. O brilho nos olhos volta, o coração bate com propósito. É como renascer com mais sabedoria.

Contras

1. Medos enraizados

Depois de tanto vivido, há medos difíceis de apagar: o medo de perder de novo, de não estar à altura, de não ser necessário, suficiente. As perdas anteriores deixam marcas fundas.

2. Saúde e limitações físicas

O corpo já não acompanha com a mesma leveza. Doenças, cansaços e fragilidades podem ser entraves, exigindo paciência, cuidado mútuo e compreensão além do comum.

3. Resistência das famílias

Filhos e netos, por amor ou desconfiança, nem sempre compreendem ou aceitam este recomeço. Às vezes, o amor na velhice precisa de enfrentar julgamentos e silêncios pesados.

4. Tempo como sombra

Há a consciência do pouco tempo que resta. A ampulheta já corre com grãos contados. E isso, por vezes, em vez de libertar, entristece. Começar algo sabendo que pode terminar cedo é um fardo e uma bênção.

Mas, no fim, amar depois dos 70 é um acto de coragem. É declarar que o coração não tem idade, que ainda vibra, ainda sonha, e que nunca é tarde para dizer: “Queres tomar um café comigo amanhã?” Mesmo que o amanhã já não dure muito. Mesmo que doa. Porque, ainda assim… vale a pena.

VANTAGEM DE MORAR JUNTOS

Partilhar uma casa depois dos 70 anos é mais do que dividir um tecto, é entrelaçar rotinas, dar nova vida aos silêncios e fazer do quotidiano uma companhia constante.

É acordar e saber que há alguém na outra almofada, alguém que ouve o ranger do chão, o tilintar das chávenas, o bater do vento nas janelas. E isso, numa fase em que tantos se habituam à solidão, é quase um milagre quotidiano.

A casa deixa de ser apenas morada, torna-se um refúgio partilhado. A presença do outro dá cor ao espaço: a toalha dobrada de outra maneira, o chá feito antes do tempo, o jornal já lido e pousado ao lado do sofá. Pequenos gestos que dizem: “Estou aqui.”

Depois dos 70, a casa pode pesar quando se está só. Os corredores parecem mais longos, a noite mais funda, o silêncio mais alto. Mas quando se partilha a casa, até o tempo muda de textura. As horas já não são vazias, são feitas de conversa, de olhar cúmplice, de saber que, ali ao lado, alguém respira o mesmo dia.

E nos dias difíceis que virão, haverá uma mão próxima, um chá quente, uma manta estendida sem que se peça. Porque partilhar uma casa é partilhar cuidado, tempo e ternura.

No fim, talvez essa seja a maior vantagem: não atravessar os últimos invernos sozinho, mas com alguém que entenda o valor de estar, simplesmente estar… até ao fim.

DESVANTAGEM DE MORAR JUNTOS

Partilhar uma casa depois dos 70 anos pode, por vezes, ser mais um desafio do que conforto. Porque, com o passar do tempo, cada um construiu o seu próprio modo de habitar o mundo, e a casa, esse espaço sagrado, torna-se espelho de hábitos, manias, silêncios e rotinas cuidadosamente moldadas pela solidão.

Depois dos 70, já se aprendeu a gostar do chá na hora exacta, do programa certo na televisão, do lugar favorito à mesa, tudo ganha a forma de um ritual pessoal. E, de repente, partilhar o espaço com outro coração, por mais amado que seja, pode parecer uma invasão suave, mas constante.

Há também o medo de perder a liberdade conquistada com tanto esforço. De ter de explicar cada gesto, justificar cada ausência, dividir o que antes era só nosso. E para quem passou uma vida inteira a cuidar dos outros, filhos, netos, amores antigos, pode doer voltar a ceder espaço, a ajustar-se, a pôr de lado…

Além disso, a intimidade física, o ritmo dos dias e até o uso do tempo ganham outros contornos. A saúde, as limitações, os horários e os pequenos desconfortos diários podem tornar-se atritos numa convivência que exige paciência redobrada.

E quando o amor é recente, mas a vida já vem longa… pode ser difícil fundir dois mundos sem deixar que um se apague.

No fundo, partilhar uma casa depois dos 70 pode ser uma desvantagem quando, em vez de companhia, se sente o peso da adaptação forçada. Quando o abrigo deixa de ser ninho e se torna labirinto.

Porque nesta idade, o que se procura já não é a paixão que arde, mas a paz que acolhe.

E se a partilha rouba mais do que oferece… talvez seja melhor amar cada um no seu lugar, com janelas abertas entre si, mas portas livres para fechar quando o silêncio pedir.

A cada um a sua escolha.

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