O MUSEU DE ETNOGRAFIA DO LOBITO COMO CONSCIÊNCIA COLECTIVA

SAMPAIO JÚNIOR

Recentemente voltei a visitar o Museu Regional de Etnografia do Lobito. Com um acervo superior a 13.513 peças, a instituição não preserva somente objectos, mas narrativas fundadoras da nossa identidade colectiva. Ainda assim, o edifício património clama por reabilitação urgente.

A sua história confunde-se com o nascimento e crescimento da cidade, desde as décadas de 1930 e 1940, período em que as acções municipais impulsionaram a modernização urbana, a consolidação do sistema rodoviário, a ferrovia em paralelo e o surgimento dos espaços públicos de lazer, jardins, praças e monumentos como marcas de um projecto de cidade.

Soube que o museu esteve inicialmente instalado no edifício da antiga Câmara Municipal do Lobito, no bairro da Caponte. Em Outubro de 1969, reconhecendo a importância científica e cultural do acervo, os chamados amigos da etnografia decidiram transferi-lo para o edifício do Banco de Angola no Lobito, comprometendo-se com o pagamento da renda um gesto nobre de cidadania. Contudo, a Revolução dos Cravos provocou a saída de grande parte desses apoiantes para Portugal ou outras paragens do mundo.

Ficou, resistindo ao esquecimento, o patriota engenheiro Francisco Castro Rodrigues, um dos grandes impulsionadores da preservação do património histórico local. Em 1978, foi ele quem transferiu todo o acervo para o edifício onde hoje funciona o museu, na Rua Vieira Machado, na Restinga, antigo Consulado Britânico, também conhecido como a Casa Madame Berman.  Ou muito me engano, mas muita boa gente da nova e até de alguma velha geração não sabe onde fica este edifício no Lobito, nem conhece a sua história. Propriedade de uma cidadã britânica, a residência foi doada, no momento da sua partida, para servir de casa de cultura. Assim permanece até hoje, mais por teimosia da memória do que por atenção institucional, como gesto silencioso de generosidade e consciência histórica.

Num país já suficientemente ferido, não precisamos espalhar mentiras que alimentem o pessimismo e o descrédito na humanidade. Pelo contrário, deixo aqui um repto público: salvemos o Museu Regional de Etnografia do Lobito, o único da cidade. Salvá-lo é reequilibrar a nossa percepção do mundo e reconciliar-nos com a nossa própria história.

O espólio inicial era numericamente reduzido, razão pela qual se justificou o seu reforço com peças provenientes do Museu Nacional de Antropologia de Luanda e, sobretudo, do Museu do Dundo, na Lunda Norte. Daí a expressiva presença de peças do grupo etnolinguístico Cokwe.

Actualmente, o museu abriga peças representativas das culturas Tchokwe, Kimbundu, Fiote, Bakongo, Nhaneca-Humbi, sendo os Ovimbundu responsáveis por cerca de 25% do total do acervo.

Importa registar, com preocupação institucional, que o museu deixou de receber materiais resultantes de pesquisas sistemáticas. Nos últimos tempos, apenas um cidadão de boa-fé ofereceu uma peça, o Oholo (marmita/terno), recipiente tradicional usado para conservar leite fresco e pirão, servido como pequeno-almoço em tempos idos. Desde então, nunca mais houve gesto semelhante de boa vontade.

Preservar a história é garantir que crianças e adolescentes conheçam as suas raízes, é permitir que os turistas que chegam pelo Porto do Lobito ou transportados pelo comboio de luxo Rovos Rail revivam, através dos objectos, a alma deste povo. Entretanto, corre dinheiro no “córrego” do Corredor do Lobito. 

Naquilo que tanto se apregoa como responsabilidade social, não poderia sair ao menos alguma “migalha” para salvar o Museu de Etnografia? Programas como o PIIM, que alimentaram algibeiras de muitos, bem poderiam reservar um mínimo de atenção para a reabilitação deste instrumento fundamental da cultura e da memória colectiva.

Entre os objectos emblemáticos encontra-se o Cingufu ou Cinguvu, tambor monóxilo de madeira fissurada, com extremidades piramidais, perfurado e amarrado com fibras vegetais e pele animal. As fissuras permitem a saída do som, produzindo duas tonalidades distintas. Trata-se de um idiofone cuja percussão é feita com dois varões de madeira com bornes de borracha. Para além do seu valor estético e técnico, o instrumento servia para a transmissão de mensagens entre aldeias e como acompanhamento de danças tradicionais. O seu som assemelha-se ao roncar do hipopótamo, razão pela qual recebe, na língua Cokwe, a designação associada a esse animal.

Destaca-se também o Kanhagunlu, espingarda artesanal da etnia Ovimbundu, fabricada com uma parte em madeira e um cano metálico longo, gatilho e suportes de metal, muitas vezes adornada com tiras e peles de animais abatidos pelos caçadores. Era utilizada tanto para a caça como para a autodefesa. Algumas dessas armas pertenceram aos guardas da antiga açucareira do Cassequel, na Catumbela. A pólvora era conhecida, em Umbundu, como Ofundanga.

A moageira de pedra, denominada Ewe lio kupapala, é outro artefacto relevante. Usada para moer cereais, sobretudo milho, continua presente no meio rural, onde o acto de moer se mistura à melodia tradicional, transformando-se em experiência cultural viva e atractiva.

Por fim, a panela de conservação de água, Ombia yo Ndungo, sendo ainda amplamente utilizada em zonas rurais e bairros periféricos. Feita de barro, preserva a água fresca e pode ser usada em fogareiros a lenha, testemunhando a inteligência ancestral da simplicidade. 

Encerrar ciclos é inevitável. Apagar memórias, não. O museu é a nossa consciência materializada. Salvá-lo é salvar-mo-nos.

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