“OS TIRANOS NÃO CAIEM TODOS OS DIAS” – MARCEL DIRSUS

POR RAMIRO ALEIXO

Para curtir a ‘ressaca’ daquele discurso do aniversário do partido dos outros, e para entender melhor o comportamento do personagem principal, embrenhei-me na minha já avantajada biblioteca (a única herança que deixarei para os meus) a procura de um livro, que se encaixasse neste momento particular de grande sobressalto político, sobretudo, para todos nós. E entre “Mein Kampf”, de Adolfo Hitler, um de entre os mais de uma dezena que recebi de oferta ou foi sugerido pelo meu filho Yannick (aos 01.06.2019), e “Como caem os tiranos e como sobrevivem as nações”, obra de Marcel Dirsus, que comprei numa das minhas incursões pelas livrarias lisboetas onde passo horas, optei, por razões óbvias, pelo segundo. E foi como que acertar no alvo. Funcionou como uma descarga interior, porque se ainda tinha algumas dúvidas sobre a figura que temos analisado, dissiparam-se no final.

Atentem só para a descrição de Marcel Dirsus e analisem se não tem semelhança com a nossa dura realidade? 

“Ao contrário das democracias, que são relativamente transparentes e abertas, as ditaduras são antros de segredos. As pessoas que falam quando não devem podem desaparecer. Os documentos do governo estão repletos de mentiras. Os jornalistas que relatam a verdade podem não durar muito.

Tentar entender a tirania não é fácil. Talvez o vice-primeiro-ministro seja um mero fantoche, ou talvez ele seja verdadeiramente a segunda figura política mais importante do país. Ou talvez as instituições do Estado não importem muito, porque são controladas por um partido revolucionário. Ou talvez nem o Estado, nem o partido importem mais porque o poder é tão personalizado. É bastante possível que o guarda-costas do tirano seja mais poderoso do que os membros do governo ou do que as elites do partido, porque ele tem a atenção do ditador e a proximidade é mais importante do que o poder formal. É difícil dizer. As ditaduras funcionam com sussurros, acordos clandestinos e encobrimentos.

A outra dificuldade de se estudar a queda dos tiranos é que, por mais grave que seja a instabilidade política, por mais frequentes que sejam as rebeliões, não é todos os dias que um tirano verdadeiramente cai”. 

Apenas por coincidência, e procurando mais informações sobre o autor, fui conduzido a uma entrevista que Marcel Dirsus concedeu a Revista portuguesa Sábado, no dia 30 de Janeiro deste ano. De forma curta, directa e grossa, Dirsus considerou que, para ser um ditador “é preciso ter algum grau de insanidade”. Infelizmente, o nosso não está sozinho, porque arrasta consigo milhares de outros doentes, que quando as coisas derem para o torto, dirão que “a culpa é só mesmo dele”. Nem do partido, que lhe serve de escada e de escudo, será.

Afinal, não nos enganamos, porque temos alguém entre nós que já atingiu esse estágio e, provavelmente, ainda não deu conta. 

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