CABINDA, LAGO DE ASFALTO

Tesouro “adormecido” que Angola tem que “despertar”

POR LÁZARO CÁRDENAS*

Poucos angolanos imaginam que, no interior verde e húmido da província de Cabinda, escondido entre raízes profundas e árvores milenares, repousa um lago que não se parece com nenhum outro. Não é de água, não é de lama, e não tem peixe. É uma superfície negra, espessa, brilhante, imóvel ao longe, mas viva de perto, como um peito que respira devagar.

Os habitantes das aldeias próximas chamam-lhe “Lago de Mandume”. A ciência descreve-o como “Lago de Asfalto de Cabinda” — e, se devidamente valorizado, pode ser um dos mais raros fenómenos naturais de África.

Situado no sector norte da comuna de Malembo, a poucos quilómetros do Atlântico e à margem da imponente floresta do Maiombe, o lago convive há séculos com pequenas comunidades que vivem da agricultura, da pesca artesanal e da colheita de frutos silvestres. São elas que, geração após geração, observam aquele espelho negro que parece murmurar uma história que o país ainda não quis escutar.

Um lago de asfalto forma-se quando o petróleo pesado, adormecido nas profundezas da terra durante milhões de anos, encontra uma fissura e sobe à superfície. Ao tocar o ar, perde os seus componentes voláteis e transforma-se em betume natural — a matéria-prima do asfalto. A diferença é simples: o betume natural nasce da terra; o asfalto industrial nasce da refinaria.

A massa negra não fica parada. Move-se lenta e continuamente, renova-se, reage à temperatura e ao clima. É por isso que geólogos de várias partes do mundo descrevem estes lagos como entidades “vivas”. Existem pouquíssimos no planeta. O mais famoso é o Lago de “La Brea”, em Trinidad e Tobago. O de Cabinda, sendo confirmado e estudado, seria o único do género em África.

O que Trinidad e Tobago fez com o seu lago é uma lição de soberania e visão. Não o entregou às multinacionais. Não o tratou como mera curiosidade geológica. Transformou-o em indústria, ciência, turismo e orgulho nacional. Hoje, o seu betume natural é exportado para dezenas de países, pavimenta estradas, aeroportos e avenidas emblemáticas. Tudo isso porque o Estado decidiu assumir o controlo, criar uma empresa própria e canalizar os lucros para o desenvolvimento interno. É a prova viva de que um fenómeno natural raro, quando colocado nas mãos do povo, pode transformar-se num motor de progresso.

Em contraste, o Lago de Asfalto de Cabinda permanece esquecido. Viu passar governos, viu passar empresas petrolíferas, viu passar oportunidades. Continua ali, silencioso, intacto, como se aguardasse o dia em que Angola finalmente o veja. Apesar de mencionado por geólogos ao longo das décadas, nunca mereceu um estudo sério, uma política pública, um plano de investigação ou sequer um debate nacional. E não aparece em nenhuma estratégia de diversificação económica, embora pudesse reduzir importações, gerar emprego local e criar uma nova indústria inteiramente angolana.

A razão é: as grandes petrolíferas concentram-se no crude, que dá retorno rápido. O asfalto natural, pelo contrário, exige paciência, visão e beneficia sobretudo as comunidades locais. Mas aquilo que não serve às multinacionais é, precisamente, aquilo de que Angola mais precisa.

A exploração sustentável deste tesouro não virá do actual Executivo. O actual Presidente, cumprindo os dois mandatos previstos pela Constituição, deixará funções antes que reformas estruturais como esta sejam possíveis. Portanto, caberá ao futuro Governo de Angola, mais cedo que tarde, assumir esta tarefa histórica. E deverá fazê-lo com coragem política, transparência e espírito de soberania.

Esse futuro Governo terá de:

— Criar uma Empresa Pública de Betume Natural, capaz de gerir o lago com rigor, tecnologia e responsabilidade ambiental;

— Estabelecer parcerias com universidades e centros de investigação para estudar, mapear e compreender este recurso como ele merece;

— Desenvolver capacidade tecnológica nacional para que Angola deixe de importar materiais rodoviários e passe a produzir o seu próprio asfalto;

— Promover emprego jovem e local, gerando uma cadeia de valor em Malembo e em toda a província de Cabinda;

— Assegurar que o lago permanece sob controlo soberano, protegido de interesses externos e garantindo que a riqueza fica em Angola.

Nada disto é impossível. Tudo depende de vontade política. E essa vontade terá de vir do próximo Governo, num tempo em que o país decidir olhar para dentro em vez de olhar somente para o petróleo bruto que exporta.

O Lago de Asfalto de Cabinda não é somente uma raridade geológica. É uma oportunidade nacional. Pode tornar-se um símbolo de transformação económica, de inteligência estratégica e de soberania real. Não pertence ao passado. Pertence ao futuro. E será o futuro Governo de Angola — quando o actual Presidente já tiver encerrado o seu ciclo constitucional — que terá a responsabilidade de o “despertar”.

Quando isso acontecer, cada estrada construída com betume cabindense será mais do que uma obra pública: será a prova de que Angola aprendeu, finalmente, a usar os seus recursos para construir o seu próprio destino e o seu futuro.

*Politólogo

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