CORREDOR DO LOBITO, O COMBOIO PASSA, O PDIC ACENA

SAMPAIO JÚNIOR

O Polo de Desenvolvimento Industrial da Catumbela (PDIC) nasceu, desgraçadamente, sob ventos pouco propícios. Na sua génese, a meritocracia foi elegantemente arredada para dar lugar a uma ‘militocracia’ zelosa. Bastava um cartão partidário reluzente do partido que governa há meio século para garantir a cadeira, mesmo que o escolhido confundisse planificação industrial com inventário de mercearia. Não admira, portanto, que a gestão danosa se tenha instalado com a teimosia de erva daninha, acompanhada pela prodigiosa distribuição de lotes a “empresários”, cuja nobreza económica consistia somente no engenho de apropriar-se do que não lhes pertencia. Todos o sabiam, mas o silêncio, esse, sim, permanecia firme como verdadeiro princípio de Estado.

O IDIA, instituição irmã, operava como verdadeiro laboratório de intrigas cozinhadas em lume brando, dignas de um romance policial de terceira ordem. Em tempos idos, os escândalos desfilavam sobre os sucessivos gestores do Conselho de Administração do PDIC com a pontualidade de um comboio suíço, e as exonerações, sucediam-se em maior número do que reuniões produtivas. O Ministério de tutela, por sua parte, limitava-se a uma supervisão cerimonial, gesto vagamente decorativo, como quem sacode a poeira sem jamais ousar levantar o tapete. Este estado de coisas arrastou-se placidamente até 2017, ano em que o actual executivo tomou as rédeas do Governo do País.

A missão formal do PDIC mantém, no papel, uma nobreza irretocável: gerir e promover um polo industrial capaz de modernizar e diversificar a economia. A realidade, contudo, aproximou-o mais de loteador de terrenos e fornecedor de desilusões. Existem espaços, é verdade, mas faltam estradas transitáveis que, em tempo de chuva, só com fé e ousadia se transita por elas; falta um sistema de macrodrenagem que não converta as fábricas em piscinas involuntárias sempre que o céu decide pôr-se a meditar em lágrimas. Mesmo no meio há um rio, o Catumbela, mas falta água para a vida. A energia, ao menos, lá está, foi instalada uma subestação de 50 MVA brilha como nota de competência num caderno repleto de rasuras.

Perante tantas fragilidades, não é de estranhar que o crescimento económico se faça tímido e o emprego desapareça com a ligeireza do salário antes do fim do mês. A inflação, pobre criatura, não encontra razões para se portar com decência.

Soube-se, por confissão recente ao jornal O País, que das 98 empresas previstas para o PDIC, somente 28 ainda respiram. As restantes 70 fecharam, vítimas de falta de financiamento, de confiança e de quase tudo, excepto retórica. Essa, como sempre, nunca escasseia. E quando se menciona o “Corredor do Lobito”, então o discurso embriaga-se de grandeza, “haver vamos”, expressão favorita dos palanques onde promessas florescem mais depressa do que infra-estruturas.

Durante anos, o PDIC — sociedade anónima de capital público, arrastou o peso de um ADN administrativo preso às gavetas do socialismo científico, atraindo oportunistas e repelindo investidores. Cada tentativa de modernização parecia acto de arqueologia política. Hoje, porém, acredita-se que o Conselho de Administração, agora jovem e presumivelmente meritocrático, traga algum fôlego renovador. Oxalá os ventos sejam mais generosos desta vez.

Entretanto, a envolvente do negócio permanece agreste. Os empresários recuaram e apontam causas claras, como falta de financiamento, erosão do poder de compra, carência de infra-estruturas essenciais e um ambiente que exige mais coragem do que prudência para se empreender. Sem água confiável e sem vias transitáveis, o PDIC arrisca-se a continuar a ver o comboio do Corredor do Lobito passar, elegante, veloz, mas indiferente, sem deixar sequer a poeira do desenvolvimento.

Reconhecer, porém, que o polo que poderia ser bom destino para investir, já revela certa lucidez. Faltou somente o essencial: governar com seriedade e competência. 

O reflexo está à vista de todos, afinal, grande parte da economia nacional se vê refém dos mesmos vícios estruturais: má governação e um sistema político que há muito perdeu o pudor, a compostura e o hábito da vergonha.

O rio Catumbela, rasga quase que a meio, a zona do Polo Industrial da Catumbela.

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