
Faltando apenas um ano para o fim do seu mandato (pois, o próximo será o ano eleitoral), a história, como sempre, fará o seu julgamento — mas os factos indicam que, num momento crítico, Angola não caiu no precipício.
A chegada do Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço à liderança da República de Angola, em 2017, coincidiu com um período particularmente delicado na história económica nacional. O País enfrentou severas restrições financeiras, resultantes da queda prolongada dos preços do petróleo, elevada exposição à dívida externa e vulnerabilidades estruturais acumuladas ao longo de vários anos. Neste contexto, a prioridade estratégica do novo Executivo era clara: preservar a estabilidade do Estado e evitar uma ruptura financeira com consequências imprevisíveis.
Falar hoje da “esquiva da bancarrota governativa” não é um exercício retórico exagerado. Trata-se de reconhecer que Angola estava perigosamente próxima de uma situação de insolvência funcional, na qual o Estado teria sérias dificuldades em honrar salários, serviços básicos e compromissos internacionais. Neste contexto, a governação de João Lourenço foi marcada por decisões impopulares, mas estruturadas, destinadas a evitar o pior cenário possível.
Uma das primeiras e mais simbólicas medidas foi a ruptura com as práticas de governação associadas à opacidade e à captura do Estado por interesses privados. A luta contra a corrupção, elevada a prioridade política, teve um duplo efeito: por um lado, sinalizou aos parceiros internacionais e aos mercados financeiros, uma mudança de paradigma; por outro lado, libertou recursos e abriu espaço para uma gestão mais racional das finanças públicas. Embora esta luta não esteja isenta de críticas — selectividade, lentidão processual ou instrumentalização política — contribuiu para restaurar, pelo menos parcialmente, a credibilidade do Estado angolano.
A nível macroeconómico, a opção, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), foi decisiva. Longe de representar uma submissão acrítica, esta compreensão funcionava como uma âncora da disciplina fiscal e monetária. A unificação da taxa de câmbio, a redução dos subsídios gerais, a contenção da despesa pública e a reforma do sector financeiro foram medidas severas, com elevado custo social, mas essenciais para estabilizar a economia e travar a hemorragia das reservas internacionais.
A reestruturação da dívida pública também merece ser mencionada. Num contexto de forte pressão externa, o Executivo angolano conseguiu renegociar termos e condições com credores bilaterais e multilaterais, evitando um cenário de incumprimento que teria consequências devastadoras para a economia nacional e para a imagem do País. Esta capacidade de negociação revelou pragmatismo político e maturidade institucional.
No entanto, esquivar a bancarrota governativa não equivale a resolver todos os problemas. A estabilidade macroeconómica alcançada continua frágil e fortemente dependente da evolução dos preços do petróleo. A diversificação económica — tantas vezes proclamada como prioridade nacional — está a avançar a um ritmo que ainda é insuficiente para gerar emprego massivo, reduzir a pobreza e garantir um crescimento inclusivo. A agricultura, a indústria transformadora e a economia do conhecimento continuam a enfrentar barreiras estruturais, desde o acesso ao crédito até às deficiências logísticas e energéticas.
Do ponto de vista social, os anos de adaptação foram particularmente dolorosos para a maioria da população. O aumento do custo de vida, o desemprego juvenil e a erosão do poder de compra põem em causa a percepção popular dos ganhos macroeconómicos. Aqui reside talvez o maior desafio político do Presidente João Lourenço: transformar a estabilidade financeira numa melhoria concreta das condições de vida dos cidadãos.
Ainda assim, uma leitura honesta da trajectória recente de Angola exige o reconhecimento de que o País evitou o abismo. A governação de João Lourenço pode ser criticada, discutida e melhorada, mas não pode ser dissociada do contexto de emergência económica em que começou. Governar, neste período, era menos uma arte de distribuir abundância e mais um exercício de contenção, correção de rumo e escolhas difíceis.
Em última análise, a esquiva da bancarrota governativa, representa apenas o primeiro capítulo. O verdadeiro teste histórico do Presidente João Lourenço não será apenas ter evitado o colapso, mas ter criado bases sólidas para o desenvolvimento sustentável, menos dependente do petróleo, mais socialmente justo e mais resiliente a crises globais. Faltando apenas um ano para o fim do seu mandato (pois, o próximo será o ano eleitoral), a história, como sempre, fará o seu julgamento — mas os factos indicam que, num momento crítico, Angola não caiu no precipício.
Bom fim de semana.
*Menga-Ma-Kimfumu











