
RECADOS DA CESALTINA ABREU (37)
“Você já pensou que se não fosse por todos, ninguém seria nada?”
Quino & Mafalda
Relendo as minhas anotações sobre a Mafalda, e encontrando esta mensagem, ocorreu-me fazer a ponte entre “você já pensou que, se não fosse por todos, ninguém seria nada?” e o conceito de UBUNTU “eu sou porque nós somos”. Fazer essa ponte sobre o Atlântico Sul, é tornar explícito, colocando em diálogo o que já está implícito na frase e no conceito.
A interrogação “você já pensou que, se não fosse por todos, ninguém seria nada?” parte de uma constatação relacional: o indivíduo não é uma ilha. A nossa identidade, as nossas conquistas, até a nossa sobrevivência, dependem de uma rede invisível de pessoas — família, comunidade, professores, agricultores, trabalhadores anónimos, gerações passadas.
O conceito de Ubuntu — frequentemente sintetizado como “eu sou porque nós somos” — aprofunda essa mesma ideia, mas dá-lhe densidade ética e cultural. Não se trata apenas de reconhecer que dependemos uns dos outros; trata-se de afirmar que a nossa Humanidade se constrói na relação com o outro.
Quando reconhecemos que, se não fosse por todos, ninguém seria nada, aproximamo-nos da sabedoria ancestral do Ubuntu: eu sou porque nós somos. A minha existência é tecida pelas mãos de muitos. A minha força nasce do encontro. A minha humanidade revela-se no modo como trato o outro.
Vivemos num tempo que exalta o “eu”. As redes sociais celebram conquistas individuais, discursos motivacionais repetem que “basta querer”, e histórias de sucesso parecem sempre obra de uma só pessoa, ‘os/as empreendedores/as’. Mas será mesmo?
Vale a pena parar e perguntar: e se não fosse por todos, alguém seria alguma coisa? Nenhum de nós chega onde chega sozinho. Há sempre mãos invisíveis que sustentam os nossos passos: quem nos ensinou a ler, quem plantou o alimento que comemos, quem construiu as estradas por onde circulamos, quem nos amparou nos dias de fraqueza. A nossa história é, na verdade, uma história colectiva.
É aqui que ecoa a filosofia do Ubuntu: “eu sou porque nós somos”. Não é apenas uma frase bonita. É uma visão de mundo profundamente africana que nos lembra que a identidade nasce da relação. Não existimos isolados. Tornamo-nos humanos no encontro.
Reconhecer isso não diminui o mérito individual; amplia-o. Porque compreender que dependemos uns dos outros não nos enfraquece — humaniza-nos. Torna-nos mais responsáveis, mais solidários, mais conscientes de que cada gesto tem impacto no tecido comum.
Talvez a grande ilusão do nosso tempo seja acreditar na autossuficiência. A grande verdade, porém, é simples e antiga: ninguém é nada sem os outros. E quando entendemos isso, deixamos de competir para começar a construir, colaborativamente.
Um bom início de semana! Saúde, cuidados e coragem para lembrar que não perdemos individualidade ao pertencer a uma identidade comunitária; ganhamos Humanidade!
Kandando daqui!











