“Recordar é também um acto de justiça”
Joaquim Sequeira, ex–preso político e sobrevivente da purga de 27 de Maio de 1977 em Angola, apresentou ao fim da tarde do passado dia 16 de Janeiro, na sala polivalente da Biblioteca Palácio Galveias, em Lisboa, a sua obra literária Ecos da Liberdade. Nela, o autor reconstrói a experiência do cárcere, da violência institucional e do silêncio imposto nesse período, numa simbiose de escrita literária marcada pela poesia e pela dignidade, conforme descrito no portal Autores.club, que dá grande destaque ao acto, tido como “o reencontro de partilha, memória e reflexão histórica”.
Publicada no final de 2025, a obra de Joaquim Sequeira, editada por João Ricardo Rodrigues, da Perfil Criativo Autores.club, constitui um testemunho directo e profundamente humano, sobre a repressão política que se seguiu aos acontecimentos de 27 de Maio de 1977. Ao longo de sete capítulos intensos, Joaquim Sequeira em Ecos da Liberdade conduz o leitor desde a prisão física até à resistência interior, mostrando como, mesmo nas condições mais desumanas, a palavra, a memória e a solidariedade, se tornaram formas de sobrevivência.
Joaquim Sequeira aborda episódios marcantes como a vida na Casa de Reclusão, em Luanda, a chamada “Noite das Facas Longas” e o impacto duradouro da repressão, na identidade individual e colectiva. Mais do que um relato pessoal, o livro afirma-se como um manifesto contra o esquecimento, num contexto em que a sociedade angolana continua a interrogar-se sobre esse passado traumático.
A apresentação congregou outros sobreviventes e familiares marcados pelos acontecimentos trágicos que ocorreram nos primeiros anos de independência da República Popular de Angola. Mas, também, leitores interessados na História Contemporânea de Angola, nos Direitos Humanos, na memória política, bem como estudantes, investigadores e integrantes da comunidade angolana radicada em Portugal, para além de cidadãos portugueses que acreditam que “recordar é também um acto de justiça”.
Dirigindo-se a audiência, Joaquim Sequeira falou não apenas como autor, mas como sobrevivente. Num discurso profundamente literário e humano, evocou a infância, a cidade perdida, os companheiros de prisão e os laços forjados na adversidade.
“Este livro é um mapa daquele território sagrado que só nós conhecemos”, afirmou, explicando que Ecos da Liberdade é um gesto colectivo, um “barquinho de papel lançado no rio do nosso passado comum”.
Num dos momentos mais emotivos da sessão, o autor dedicou o livro aos filhos, às netas e aos companheiros de sequestro, afirmando que escreveu para transformar a dor em palavra e a ausência em presença literária. “O corpo pode ser aprisionado, mas o espírito jamais se rendeu”, declarou, resumindo o sentido profundo da obra.
Ao longo da sessão, foi visível a comoção do público. Lágrimas foram contidas, silêncios densos e longos aplausos. Ecos da Liberdade revelou-se assim, não apenas como um testemunho histórico inédito, sobre o que se viveu particularmente na Casa de Reclusão, mas também como um acto de resistência. Contra todas as tentativas de se apagar a memória sobre o que é tida como a maior matança da história de Angola no pós-independência, facto que o poder instalado ainda tem dificuldade de gerir, apesar de um ‘perdão presidencial’ com ‘condimentos’ de conforto político.

Resistência e liberdade de pensamento
No decorrer do lançamento do Ecos da Liberdade, foi também prestada sentida homenagem ao nacionalista e médico Manuel Vidigal, participante na gesta da independência. Ao longo de quase cinco décadas, destacou-se em acções de exigência de constituição de uma Comissão da Verdade, bem como na afirmação pública de que não existiu nenhuma tentativa de golpe de Estado contra o MPLA ou contra o então Presidente Agostinho Neto. A sua voz foi descrita como “símbolo de resistência democrática e de exigência moral”.
Do mesmo modo, foi destacado o papel da Associação 27 de Maio, como um pilar da luta contra a amnésia colectiva, pela preservação da memória das vítimas, pela verdade histórica e pelo direito ao reconhecimento público. A sua intervenção, ao longo de quase quarenta e oito anos permitiu que os sobreviventes da chacina continuassem a “pugnar pela verdade, pela justiça e pelo fim da impunidade”.
Outro testemunho emotivo foi prestado pelo Presidente da Associação 27 de Maio, José Reis, que descreveu, com detalhe o sequestro, a tortura, a humilhação e os desaparecimentos forçados ocorridos nas cadeias de São Paulo, na DISA e na Casa de Reclusão. José Reis recordou a chamada “Noite das Facas Longas”, em Março de 1978, clarificando que, a prestação desse depoimento deve ser entendida também como contributo para a clarificação de dúvidas “quanto ao que está escrito em Ecos da Liberdade”.
José Fuso, autor do prefácio da obra, proporcionou outro momento intenso da sessão de lançamento de Ecos da Liberdade. Falando como sobrevivente e como companheiro de percurso do autor, José Fuso destacou a dimensão ética e poética do livro, sublinhando que o testemunho de Joaquim Sequeira transforma a experiência do cárcere e da repressão, numa narrativa de resistência e de liberdade de pensamento. Escrever e publicar, disse, “é um acto político de memória, essencial para impedir o apagamento histórico e para devolver humanidade às vítimas silenciadas”.
Enquanto editor, João Ricardo Rodrigues, da Perfil Criativo Autores.club, reafirmou o compromisso da edição independente com a publicação de obras sobre os episódios violentos da história angolana, sublinhando que Ecos da Liberdade não nasce do ressentimento, mas da necessidade ética de testemunhar para que a violência não se repita.

O drama das mulheres presas, torturadas e muitas, desaparecidas
A apresentação do livro Ecos da Liberdade, de Joaquim Sequeira, foi também marcada por um anúncio de grande relevância histórica e cívica: a Associação 27 de Maio desenvolve uma plataforma, dedicada à identificação e mapeamento das dezenas de milhares de desaparecidos, na sequência dos acontecimentos de 27 de Maio de 1977.
O objectivo é reunir informação dispersa ao longo de quarenta e oito anos, cruzando testemunhos, nomes, locais de detenção, datas e circunstâncias de desaparecimento, para construção de uma base de dados rigorosa. Será um contributo para a verdade histórica, o reconhecimento das vítimas e a preservação da memória colectiva.
Nesse sentido, foi lançado um apelo público para que todos os angolanos, dentro e fora do país, reportem casos de familiares ou conhecidos desaparecidos durante o processo repressivo, que se seguiu ao 27 de Maio.
Verónica Leite de Castro, integrante da Associação 27 de Maio, chamou a atenção para uma dimensão ainda pouco conhecida desta tragédia: o caso das mulheres angolanas torturadas, presas e que desapareceram, muitas delas sem qualquer reconhecimento público ou registo oficial. Sublinhou, igualmente, a situação dos órfãos, vítimas directas e indirectas da repressão, que cresceram marcados pela ausência forçada dos pais e pelo silêncio imposto em torno destes acontecimentos.
Foi destacado que a repressão não atingiu apenas militantes ou suspeitos políticos, mas alastrou-se por famílias inteiras, produzindo um legado de trauma intergeracional, que continua a marcar a sociedade angolana. Para a Associação 27 de Maio, dar visibilidade às mulheres e aos órfãos, é um passo essencial para uma abordagem mais justa e completa da memória do genocídio.
Este anúncio reforçou o carácter do evento como espaço de denúncia, reflexão e acção cívica. Mais do que um momento literário, a sessão afirmou-se como um apelo à participação activa da sociedade na construção da verdade histórica, numa altura em que se aproxima o cinquentenário de uma das páginas mais trágicas (negras) da história contemporânea de Angola.
Fonte: Autores.club











