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O jornal “O Globo” assinala, com pompa e circunstância, o centenário da sua fundação. Na lusofonia, e não apenas na imensa comunidade, a sua marca é muito conhecida. A TV Globo, que também festeja aniversário de número redondo – 60 anos de vida – tem apresentado nestes últimos dias, uma série de interessantes episódios da vida da poderosa empresa de comunicação, líder do sector em toda a América Latina. Uma verdadeira máquina de fazer notícias!
Estou a falar de uma entidade que vive sob a aura de um nome de família carismático, famoso por se ter tornado legenda, espécie de mito, tamanho é o seu simbolismo. Falando do documentário que corre, reconheça-se, entre o mais, a superior realização. As imagens de época, com seus factos, movimentos e ideologias, resultam em flashes da maior qualidade, e a presença do actor Tony Ramos, que é magnífica, destaca em vários momentos, a figura principal. O tal nome de apelido incontornável que atende por Marinho.
A aventura começou com Irineu Marinho. O prestígio e o poder consolidaram-se com Roberto Irineu – diz-se que, entre muitos títulos, chegou a membro da Academia Brasileira de Letras – secundado pelos irmãos João Roberto e José Roberto Marinho e mais alguns familiares, todos eles firmes ao leme da enorme nau em que navega o Grupo Globo. Anticomunistas assumidos e opositores da esquerda brasileira, os membros da poderosa família nunca disfarçaram, ontem como hoje, a animosidade que os move. Vem de longe, atravessou épocas e conviveu com vários regimes. Marcou presença na era Jango e seguiu vigiando, nos tempos de moderna contestação, os passos do Presidente Lula da Silva e das suas políticas.
No jubileu de “O Globo”, será imperdoável olvidar-se a sua forte ligação com a cultura. Feita através do cinema, das novelas, das séries, do teatro, da música, do entretenimento, enfim, duma fantástica aproximação com artistas de todas as áreas. Essa particularidade faz-me recordar. E recuo à primeira metade da primeira década do novo século, quando visitei, integrado num grupo de escritores angolanos, os estúdios da Globo Cultura, no Rio de Janeiro. No rescaldo do encontro, foi manifestado por responsáveis da estação, o desejo de transformar em programa ou conto de televisão, o conteúdo do livro infantil “A Canção Mágica” do nosso John Bella, editado pela minha Chá de Caxinde. Se bem me lembro, terá sido a falta de experiência ou a pobreza da comunicação, a responsável por não termos chegado a qualquer entendimento. Tive muita pena desse fracasso!
Entretanto, a história da Globo contada nestes capítulos, mostra-nos momentos inesquecíveis. Cenas sublimes imortalizadas pela imagem. Algumas violentas, com as crises políticas a evidenciarem simultaneamente a vida do jornal e da Nação brasileira.
Não posso deixar de assinalar uma das épocas mais conturbadas e difíceis da vida do jornal “O Globo”. A que envolveu Carlos Lacerda, o jornalista que havia sido conotado com o suicídio do Presidente Getúlio Vargas, em 1954, e que se viu, posteriormente, cúmplice do ditatorial Golpe Militar de 1964. Tinha nos óculos de forte graduação uma marca identitária, e o seu carisma fê-lo chegar ao cargo de Governador da Guanabara e até a candidato à Presidência da República. Era um homem controverso, muito atrevido! Do seu currículo consta um ror de cenas violentas. Especulava-se o relacionamento com bombas a explodirem em espaços movimentados das grandes cidades, para além de muitos outros problemas de violência verbal, da índole dos que o colocaram em confronto aberto com os ex-presidentes Jânio Quadros e João Goulart. Gostando-se ou não dele, era, indubitavelmente, um homem sem medo, virado para o combate e a maka política.
A história mostra que vários jornalistas e colunistas influenciaram a vida do jornal. O documentário realça Evandro Carlos de Andrade, eventualmente, o maior de todos. Foi responsável pela mudança decisiva que em 1971 se operou na estrutura funcional de “O Globo”. Ficou na história da instituição, como ficaram nomes famosos do jornalismo, das letras e da cultura brasileiras. Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Chico Anísio, Jô Soares, Fernanda Montenegro, Anselmo Duarte, Tónia Carrero, Glória Maria, Lima Duarte, Paulo Gracindo, são alguns entre muitos outros. Trabalhou também para “O Globo”, aquele que é considerado um dos maiores dramaturgos brasileiros, ou seja, o jornalista Nelson Rodrigues. As suas crónicas eram literalmente devoradas pelo público e “O Beijo no Asfalto”, a sua mais célebre obra, tornou-se um sucesso. Tanto o livro como a famosa peça, baseados em factos supostamente ocorridos na redacção e na rua em frente ao jornal, transformaram-se num dos maiores êxitos da dramaturgia brasileira.
Esta sumária identificação da Globo, dos nomes e factos que fazem dela e do seu fantástico mundo, uma entidade única, de eleição, feita por mim, pode surpreender. Fui movido apenas pelo intuito de realçar a importância da comunicação na vida de um povo e de uma Nação (Angola não vai deixar de seguir este desígnio), a par da tentativa de mostrar a improvável ligação de um miúdo matuense – eu mesmo – que através da leitura ganhou conhecimento, embora precário, de como se movimentava a vida política, desportiva e cultural do Brasil. Em Calulo, meu pai era assíduo leitor e eu, não sendo nenhum prodígio, longe disso, já desfolhava, ingénua, mas regularmente, não somente as páginas do “O Globo”, mas também de revistas como “O Cruzeiro” e a “Manchete”, mostrando o quanto me seduziam pela curiosidade, a escrita, a literatura e o jornalismo brasileiros, de um modo geral.
Não sou jornalista, mas confesso que gostaria de ter abraçado a profissão. Aliás, tenho mostrado de várias maneiras, que gostaria de ter sido um bom repórter, tipo Luís Alberto Ferreira, minha melhor referência, uma figura que, infelizmente, há pouco nos deixou. O que não faria eu, se tivesse chegado lá! Toda a minha vivência tem mostrado, envergonhada, esse oculto desejo. As minhas reacções em relação às notícias que se fazem e circulam, que se fabricam mentirosamente, vão no mesmo sentido que seguem as dos mais categorizados profissionais da comunicação social. Como qualquer jornalista, também valorizo o nobre compromisso que se deve assumir com os leitores. Há regras no jornalismo que eu, apesar de não ser da classe, sempre soube interpretar. A verdade é um desses predicados.
Devo admitir que a forte ligação com o meu irmão Quim, o jornalista Aguiar dos Santos, que tão prematuramente nos deixou, ajudou-me a descobrir o mundo que envolve a arte de transmitir a notícia, o ambiente em que algumas delas se fabricam e a enorme responsabilidade a que a profissão sujeita os seus filiados. Que falta me têm feito, quer ele, quer Gustavo Costa, outro companheiro inesquecível, neste momento que vivemos, tão difícil da vida do nosso país. Um momento a exigir coragem de todos os seus filhos!
Esta crónica já não foi escrita na simpática localidade de Fernão Ferro. As coisas para recordar passarão a ser buriladas a partir do Forte da Casa, onde acabo de me instalar. Dito isto, fico-me por aqui, cumprimentando e desejando aos leitores e aos amigos, o melhor para esta semana e para as vindouras. Assim sendo, até domingo próximo à hora do matabicho.
Forte da Casa, Portugal, 31 de Agosto de 2025