
RECADOS DA CESALTINA ABREU(12)
A Educação deve formar mentes criativas, críticas e inovadoras, capazes de transformar o mundo, em vez de apenas reproduzir conhecimentos passados.
A frase que serve de título a este texto, atribuída a Mafalda(1) (icónica personagem de banda desenhada) é usada frequentemente em protestos e análises sobre o desinvestimento no ensino que vem acontecendo em todo o mundo, alinhado à tendência global predominante de autocratização, com o declínio contínuo, nos últimos 25 anos, dos padrões democráticos, estando a maioria da população mundial (+ de 70%) vivendo em regimes autocráticos ou em processo de autocratização. Apesar deste quadro sinistro, o Relatório do V-DEM Institute, lançado em Março de 2025 (Relatório da Democracia 2025 – 25 Anos deAutocratização: Foi a Democracia Derrotada?), também relatou casos de resistência e mobilização popular em defesa da democracia, sublinhando a urgência de fortalecer as instituições democráticas face aos desafios actuais.
A reflexão sobre este tema surgiu-me ao ler a notícia do lançamento do primeiro Barómetro da Lusofonia, que será divulgado na quarta-feira (28/1) em Lisboa, na sede da CPLP. Realizado pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Económicas, com sede em São Paulo, no Brasil, e coordenado pelo cientista político brasileiro António Lavareda, o barómetro reúne as percepções dos cidadãos de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste sobre “25 indicadores”.
O estudo revela que Saúde, Educação e Desemprego lideram as preocupações dos cidadãos da lusofonia.Em Angola, Educação, Saúde e Desemprego surgem no topo das preocupações, com valores mais elevados do que a média dos países analisados: a Educação é mencionada por 53% dos angolanos inquiridos, a Saúde por 48% e o Desemprego por 45%. A inflação surge em 4.º lugar, com um peso particularmente elevado, correspondendo a cerca do dobro da média geral.
Angola continua a estar na lista dos países com o pior Sistema de Educação desde a escola primária ao ensino universitário, no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), de acordo com dados apresentados no III Encontro de Jovens Investigadores da CPLP (Luanda, 27–28 Março 2024). Calcula-se que cerca de ¼ das crianças em idade escolar estejam fora do Sistema de Ensino.
Só é possível defender os valores democráticos e o Estado de Direito com uma Educação libertária, como ensinou Paulo Freire (1921–1997, educador e filósofo brasileiro): não é doutrinação, é emancipação. É a Educação enquanto processo de libertação humanista e política, a que ensina a pensar criticamente, que promove a produção de conhecimento, e que, por isso, não é interessante para o sistema. Porque “um povo educado é fácil de ser liderado, mas difícil de ser dirigido; fácil de ser governado, mas impossível de ser escravizado” (Germano Rigotto, 1949, político brasileiro).
Um povo educado questiona as estruturas dos poderes instituídos, denuncia injustiças e manipulações políticas, contesta e desafia abusos e a corrupção, e perante a falta de respostas dos poderes em relação a atropelos aos direitos e à democracia, mobiliza-se para derrubar o sistema. A Educação deve formar seres humanos aptos a governar a si mesmos e não para ser governados por outros, defendia o ‘Pai’ da Sociologia, Herbert Spencer (1820–1903), filósofo e sociólogo inglês, um dos fundadores da Sociologia no século XIX.
Para Jean Piaget (1896–1980), biólogo, psicólogo e epistemólogo suíço, o principal objectivo da Educação é ‘criar’ pessoas capazes de fazer coisas novas, e não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram: a Educação deve formar mentes criativas, críticas e inovadoras, capazes de transformar o mundo, em vez de apenas reproduzir conhecimentos passados. Defendendo que “Educar não é cortar as asas, mas ensinar a voar”, Maria Montessori (1870–1952) educadora, médica e pedagoga italiana, desenvolveu um método educacional baseado na autonomia, liberdade com limites e no respeito ao desenvolvimento natural da criança, com foco na formação de cidadãos independentes.
Na sua obra“A Ordem do Discurso”, 1970, Michel Foucault (1926–1984) filósofo, historiador das ideias, filólogo, crítico literário e professor de História dos Sistemas do Pensamento, alertava: “todo o Sistema de Educação é uma maneira política de manter, ou modificar a apropriação dos discursos com os saberes e os poderes que eles trazem consigo”. E Sir Arthur Lewis (1915–1991), economista de Santa-Lucia, o primeiro negro a ganhar um Prémio Nobel, lembrava: “Educação nunca foi despesa. Sempre foi investimento, com retorno garantido”.
Por ser a Educação que faz o futuro parecer um lugar de esperança e de transformação, Nelson Mandela, o saudoso Madiba (1918–2013), advogado, líder da luta contra o apartheid, vencedor do Prémio Nobel da Paz de 1993, e presidente da África do Sul de 1994–1999 a considerava a “arma mais poderosa para mudar o mundo”. Nesse sentido, Malala Yousafzai (1997), activista paquistanesa, vencedora do Prémio Nobel da Paz em 2014, é um exemplo contemporâneo da defesa da educação emancipatória. Sobrevivente de um atentado dos talibãs aos 15 anos, por ir à escola, ela fundou o Malala Fund, promovendo activamente o direito de meninas à educação como ferramenta de liberdade, de resistência e de ‘empoderamento’ global.
A minha intenção, ao listar e citar tantas e tão distintas personalidades, é a de mostrar que apesar de formações diferentes e trajectórias de vida em épocas e contextos bem distintos, todos/as valorizam uma Educação que promova o desenvolvimento intelectual e o futuro de uma nação, através do investimento na criação das condições e oportunidades para a construção do pensamento crítico, com espaço para a criatividade e a inovação, o respeito pela diversidade e a complexidade do mundo de hoje, e que além de formar especialistas nas várias áreas do conhecimento, prepare cidadãos. E para isso, é necessário um sistema de ensino que, aos vários níveis, exponha professores e estudantes a contextos multiculturais e a abordagens interdisciplinares, para que, além de promover o pensamento criativo, contribua para desenvolver atitudes, comportamentos e capacidades para a sociedade como Cidadãos.
E, a finalizar, a pergunta é: a quem interessa investir num sistema de educação pública, universal e de qualidade para promover uma cidadania preparada, informada, confiante e actuante?
Boa 2ª feira, para começar bem a última semana do 1.º mês de 2026. Saúde, cuidados e coragem para continuar nas várias frentes de luta por direitos e defesa de princípios e valores democráticos.
Kandando daqui!
(1) – Mafalda é uma icónica personagem de banda desenhada criada pelo cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado, conhecido como “Quino”. Publicada entre 1964 e 1973, a menina de seis anos é conhecida por ser contestatária, perspicaz e preocupada com a paz mundial, a humanidade e a política, criticando o estado do mundo com humor inteligente.












